O dinheiro compra a felicidade? Estudo em 19 regiões revela que quem ganha quase nada vive tão feliz como quem tem bons salários

O estudo, que entrevistou 2.966 indivíduos de comunidades indígenas em 19 locais em todo o mundo, revela que, apesar de rendimentos monetários mínimos, estas comunidades relatam níveis notavelmente elevados de satisfação com a vida.

Pedro Gonçalves
Fevereiro 10, 2024
12:00

Num estudo inovador publicado no Proceedings of the National Academy of Sciences, investigadores do Instituto de Ciência e Tecnologia Ambiental da Universitat Autònoma de Barcelona e da Universidade McGill, no Canadá, questionaram o velho ditado de que “dinheiro compra a felicidade”. O estudo, que entrevistou 2.966 indivíduos de comunidades indígenas em 19 locais em todo o mundo, revela que, apesar de rendimentos monetários mínimos, estas comunidades relatam níveis notavelmente elevados de satisfação com a vida.

Contrariamente à crença convencional que associa o crescimento económico e rendimentos mais altos a um maior bem-estar, a investigação sugere que a felicidade vai além da riqueza monetária. Enquanto inquéritos globais frequentemente destacam a maior felicidade relatada em países de salários altos em comparação com os com ordenados mais baixos, este estudo aprofunda a questão, examinando comunidades onde o dinheiro desempenha um papel menos central na vida quotidiana.

O autor principal, Eric Galbraith, destaca que, “surpreendentemente, muitas populações com rendimentos monetários muito baixos relatam níveis médios muito altos de satisfação com a vida, com pontuações semelhantes às dos países ricos.” Esta revelação desafia noções preconcebidas sobre a importância universal da riqueza para a felicidade.

As descobertas do estudo são tão esclarecedoras quanto provocativas. Apesar de histórias duradouras de marginalização e opressão, as comunidades pesquisadas exibem resiliência e contentamento. Fatores como apoio social, relacionamentos próximos, espiritualidade e uma forte conexão com a natureza emergem como contributos significativos para o seu bem-estar geral.

Além disso, a pesquisa tem profundas implicações para os esforços de sustentabilidade em todo o mundo. Sugere que o crescimento económico intensivo em recursos pode não ser um requisito para a felicidade humana. Isto desafia modelos tradicionais de desenvolvimento que priorizam o crescimento do PIB em detrimento da sustentabilidade ambiental e da equidade social.

Uma das descobertas mais marcantes é a disparidade entre os níveis de felicidade relatados nessas comunidades e entre países ricos. Enquanto a pontuação média de satisfação com a vida entre as sociedades estudadas é impressionante, com uma média de 6,8 em 10, algumas comunidades pontuaram ainda mais alto, com cinco comunidades relatando pontuações de felicidade de oito ou mais, rivalizando com os países mais felizes do mundo.

Segundo os resultados, o top 5 das comunidades mais felizes é composto pelos indígenas das terras altas do oeste da Guatemala, do rio Jurua, no Brasil, de Amambay, no Paraguai, de Lonquimay, no Chile e de Puna, na Argentina.

A autora sénior do estudo, Victoria Reyes-Garcia, destaca a importância destas descobertas, afirmando que “a forte correlação frequentemente observada entre rendimento e satisfação com a vida não é universal”. Ela enfatiza que a riqueza, como gerada pelas economias industrializadas, pode não ser fundamentalmente necessária para os seres humanos levarem vidas gratificantes.

Embora o estudo ofereça informações valiosas, os investigadores reconhecem a necessidade de investigações adicionais sobre os fatores específicos que impulsionam a satisfação com a vida em comunidades diversas. Ao entender o que torna a vida satisfatória nesses contextos únicos, os decisores políticos e os especialistas esperam desenvolver abordagens mais inclusivas e sustentáveis para promover o bem-estar global.

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