O custo invisível do ChatGPT: mensagens longas consomem mais energia e água

Cortesia parece inofensiva, mas no mundo da inteligência artificial até palavras como “por favor” e “obrigado” entraram na discussão sobre consumo de energia, água e emissões

Francisco Laranjeira

A cortesia parece inofensiva, mas no mundo da inteligência artificial até palavras como “por favor” e “obrigado” entraram na discussão sobre consumo de energia, água e emissões. O ‘UNILAD Tech’ recupera estimativas que procuram medir o impacto ambiental das interações com chatbots e levanta uma questão inesperada: será que estamos a gastar recursos só para sermos educados com uma máquina?

A ideia pode parecer exagerada à primeira vista. Muitos utilizadores falam com ferramentas como o ChatGPT da mesma forma como falariam com uma pessoa, usando fórmulas de cortesia, agradecimentos e frases completas. Outros, em tom de brincadeira, dizem fazê-lo para se protegerem de uma eventual revolta futura dos robôs. Mas quanto mais longa for a mensagem, mais processamento é necessário.

Esse processamento depende de centros de dados que consomem eletricidade e, em muitos casos, grandes quantidades de água para arrefecimento. Por isso, acrescentar palavras redundantes a uma conversa com IA pode parecer irrelevante no ecrã, mas ganha outra dimensão quando multiplicado por milhões de pedidos diários.

O artigo cita uma estimativa publicada por Nesibe Kırış Can na newsletter ‘techletter’, segundo a qual uma mensagem de 100 palavras enviada a um chatbot de inteligência artificial pode consumir mais de 1,4 litros de água. Nessa lógica, uma resposta curta como “de nada” poderia representar cerca de 50 mililitros de água.

Estes números devem ser lidos como estimativas, não como uma medição universal aplicável a todas as interações. O consumo real pode variar consoante o modelo usado, a infraestrutura, a localização do centro de dados, a fonte de energia e o método de arrefecimento. Ainda assim, a dimensão do problema cresce quando se pensa em centenas de milhões de utilizadores a escreverem diariamente para sistemas de IA.

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O debate surge numa altura em que a expansão da inteligência artificial aumenta a pressão sobre a infraestrutura digital. De acordo com o ‘UNILAD Tech’, um relatório do Institute for Water, Environment, and Health da United Nations University alerta que, dentro de quatro anos, o consumo acumulado de água associado à IA poderá equivaler ao necessário para sustentar 1,3 mil milhões de pessoas.

O mesmo relatório aponta para uma pressão crescente também no consumo elétrico. Segundo o texto, as necessidades energéticas associadas à IA poderão atingir uma escala equivalente ao triplo do consumo conjunto de mais de 650 milhões de habitantes de países como Paquistão, Bangladesh e Nigéria. Já as necessidades de água poderão ultrapassar o consumo anual das populações da África subsaariana.

A pressão não se limita à água e à eletricidade. A IA também exige espaço físico, através de centros de dados cada vez maiores. Até 2030, a pegada territorial associada a esta infraestrutura poderá ultrapassar 14.500 quilómetros quadrados, uma área descrita como aproximadamente o dobro da região metropolitana de Jacarta, onde vivem mais de 32 milhões de pessoas.

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A conclusão dos investigadores citados pelo ‘UNILAD Tech’ é clara: a inteligência artificial não é apenas uma tecnologia digital, mas também um sistema material, com custos ambientais mensuráveis. Ou seja, aquilo que parece acontecer apenas numa janela de conversa depende, na realidade, de servidores, energia, água, terreno e cadeias de infraestrutura.

A conclusão prática é simples: quanto mais curtas e diretas forem as interações, menor tende a ser a carga computacional. Cortar palavras desnecessárias, evitar mensagens redundantes e pedir respostas mais concisas pode ajudar a reduzir o consumo associado ao uso diário de chatbots.

O texto refere ainda que ajustar a forma como a IA responde pode fazer diferença. Instruções como pedir respostas breves, limitar a informação ao essencial ou evitar explicações longas quando não são necessárias podem reduzir comunicações redundantes. Segundo especialistas citados no artigo, respostas mais curtas podem diminuir as exigências energéticas das conversas até 30%.

A recomendação, porém, não precisa de ser lida como um apelo à rudeza. A questão central é outra: falar com a IA de forma clara, objetiva e eficiente pode ser melhor para o resultado, para o tempo do utilizador e para a pegada ambiental da tecnologia.

No fundo, o problema não está num “obrigado” isolado. Está na escala. Uma palavra a mais parece irrelevante; milhões de conversas mais longas, todos os dias, já entram noutra dimensão. E é aí que a inteligência artificial começa a revelar um custo que nem sempre aparece no ecrã.

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