O comissário da propaganda

Por Manuel Falcão – sfmedia.org

 

Um dos meus passatempos é olhar para a política através da comunicação, das frases ditas, da presença mediática. O mais interessante comentário sobre a nomeação de Pedro Adão e Silva para responsável pelas comemorações do 25 de Abril veio do Presidente da República, quando afirmou que esse era um nome consensual. Ora vamos ver que consenso foi esse. Que se saiba o PS não consultou os partidos parlamentares, não fez diligências na casa da Democracia, o Parlamento, para ouvir opiniões de todos os sectores lá representados sobre quem havia de coordenar as celebrações dos 50 anos do 25 de Abril. Corrijam-me se estiver enganado: o 25 de Abril trouxe liberdade de organização de partidos políticos, eleições livres, instituições emanadas do voto, nomeadamente a própria Assembleia da República. As pessoas votam  Quer-me parecer que seria pois normal que ao celebrar meio século sobre a data que tornou tudo isto possível os partidos políticos com assento parlamentar fossem chamados a colaborar na definição do modelo das celebrações e na escolha do seu responsável. Bem sei que pouca coisa me surpreende hoje em dia, mas o comportamento do Governo foi ignorar tudo isto e fazer um filme com o elenco que escolheu e um argumento feito à medida. Não me parece que se tenha procurado consenso. De uma assentada o PS fez uma finta ao Parlamento, ao resultado das eleições e à representatividade dos outros partidos. Que esta manobra seja apadrinhada pelo Presidente da República é ainda mais insólito.


Olhando de novo para a paisagem mediática ressalta o peso dos comentadores políticos. Em Portugal, desgraçadamente, o papel de análise e comentário político é deixado a ex-dirigentes partidários ou a candidatos a futuros dirigentes partidários. Logo a análise é enviesada pelas preferências de cada um. Acresce que as mais das vezes os comentadores duplicam como teóricos da bola, aliás como o próprio Pedro Adão e Silva – e assim defendem o seu partido nuns dias e o seu clube nos outros. Não é um mundo muito saudável. Atendendo à escolha feita não é de estranhar que o PS tenha preferido decidir sozinho sem dar cavaco a ninguém – já se sabia que ía dar borrasca, Pedro Adão e Silva não teria um consenso fácil. Ele apresenta-se como um comentador político, mas na realidade é um propagandista do PS e um defensor do Benfica. Mas fiquemos pela política:  Os seus comentários são a preto e branco: o que o PS faz está bem feito, o que o Governo do PS faz está bem feito, o que os outros dizem e fazem não interessa. Pedro Adão e Silva geralmente actua com alguma elegância mas nos casos extremos ataca com força, segundo o velho princípio de quem se mete com o  PS leva. É certo que Pedro Adão e Silva tem uma grande habilidade em defender o indefensável e uma grande capacidade argumentativa, por isso mesmo é um propagandista eficaz, não é do género rottweiler como outras figuras do PS – lembro-me dos ministros Santos Silva e de Pedro Nuno dos Santos. Ao escolher um dos seus propagandistas para organizar as celebrações de uma data que deve ser inclusiva, o PS mostrou mais uma vez ao que vem hoje em dia e amplia a imagem que claramente António Costa gosta de fazer passar: quero, posso e mando. E a verdade é que lhe dão espaço para isso.


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