Por Joana Poças, Diretora de Marketing da Aralab
Todos os anos, eventos internacionais e cimeiras climáticas, como a Conferências das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP), captam as atenções mediáticas e políticas com imagens de líderes a negociarem metas de redução de emissões ou a discutirem compromissos financeiros. Mas por detrás das manchetes e das declarações de impacto decorrem trabalhos invisíveis e silenciosos, altamente tecnológicos e que permitem desenvolver soluções reais e concretas através da simulação climática. Sem estes trabalhos, simplesmente não teríamos o conhecimento necessário para quantificar riscos, antecipar cenários e definir políticas que podem mudar o destino do planeta.
Quando lemos um relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), que é muitas vezes descrito como o “estado da arte” sobre alterações climáticas, esquecemo-nos de que cada gráfico e cada curva assenta em milhões de horas de cálculo realizadas por supercomputadores e modelos matemáticos sofisticados. Simular o clima não é um exercício de futurologia: é ciência dura, assente em física, química, biologia e estatística. É a tentativa de traduzir em números e imagens um sistema caótico e interdependente, que liga oceanos, florestas, gelo e atmosfera.
A importância destas simulações vai ainda muito além da previsão global de temperatura média. Os trabalhos desenvolvidos nas Conferências das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas ajudam a projetar fenómenos extremos como ondas de calor, secas prolongadas, tempestades devastadoras, assim como a preparar cidades e infraestruturas para resistirem a estes eventos. Uma barragem, uma linha férrea ou até um plano agrícola sustentável dependem cada vez mais de modelos climáticos regionais que antecipem como será o mundo em 2030, 2050 ou até 2100.
Mas há ainda um outro lado menos conhecido, nomeadamente o da investigação experimental que recria, em escala laboratorial, os impactos do clima. Hoje existem equipamentos capazes de expor plantas a temperaturas extremas, ciclos de seca e humidade, ou atmosferas com concentrações elevadas de dióxido de carbono, para perceber como reagirão as culturas agrícolas no futuro. Há também câmaras climáticas que testam a resistência de materiais de construção a cenários de calor intenso, radiação ou salinidade. Até a indústria farmacêutica recorre a estas tecnologias para verificar como determinados medicamentos se comportam em condições ambientais alteradas. A ciência do clima não está apenas nos gráficos globais: está também nestes “microclimas” recriados com precisão e que nos permitem calcular a escala de resistência de todo o nosso sistema que tomamos como garantido.
Apesar desta realidade, esta dimensão tecnológica que falo raramente entra no debate público. Talvez porque não seja tão fotogénica quanto um protesto de ativistas ou um discurso inflamado. O paradoxo é que, quanto mais sofisticados os modelos se tornam, mais clara é a mensagem de que não precisamos de esperar por certezas absolutas para agir. Os cenários variam, mas a tendência é inequívoca. A ciência já cumpriu a sua parte ao reduzir a incerteza e cabe agora à política e à sociedade traduzirem projeções em ações concretas.
Talvez seja tempo de dar mais visibilidade a estas ferramentas invisíveis que são mais do que meros exercícios académicos, pois arrisco-me a dizer que são os instrumentos mais poderosos que temos para salvar o planeta. Se a COP é o palco, os laboratórios, os supercomputadores e toda a classe científica são os bastidores onde se decide o enredo. Neste cenário coletivo, não podemos dar-nos ao luxo de ignorar o trabalho daqueles que, silenciosamente, já estão a ensaiar o futuro.




