Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati
A história repete-se em ciclos idênticos a cada 50 a 100 anos, como na economia, em minha opinião. Apenas mudam os nomes e a tecnologia, mas os erros políticos e as ambições manifestam-se da mesma maneira.
Portanto o que têm estas 2 personagens russas em comum? nada e tudo! Não são contemporâneos mas ambos criaram um reinado paralelo na Rússia. Um passou de camponês a homem santo e mensageiro de Deus (recordemos que a conversão de Rasputin não foi obra do acaso, mas forçada: ele foi parar ao Mosteiro de Verkhoturye para cumprir uma penitência por roubo). O outro passou de vendedor de cachorros quentes para um careca oligarca, cruel e dono de uma empresa de mercenários. Ambos cultivavam inimigos influentes e poderosos mas a sua ligação ao “Czar” tornou-os temporariamente intocáveis. Rasputin tornou-se conselheiro de Alexandra, a esposa do último czar do país, chegando mesmo a nomear ministros e despertando o ódio da sociedade. A Czarina acreditava que Rasputin teria salvo a vida do seu filho, Alexei Romanov, que era hemofílico. Passou a ser o alvo de uma atenção cega e uma confiança desmedida, denominando-se de “mensageiro de Deus”. Estava no topo da Igreja Ortodoxa, apesar do seu comportamento devasso e das denúncias de vários políticos. O czar afastou-se dele mas a czarina Alexandra manteve a sua confiança absoluta no decadente monge. Foi assassinado pelo nobre Yussupov em 1916, 2 anos antes do brutal assassinato da família imperial. Mas tinha tido sucesso a fazer desaparecer a maioria dos seus inimigos. Mesmo acusado de espionagem pela Alemanha durante a primeira guerra mundial. Rasputin fez a previsão de que a Rússia cairia em desgraça durante a primeira Guerra Mundial, o que levou Nicolau II a abandonar a corte para comandar o exército, em 1915. O que foi desastroso pois a sua falta de experiência militar, o abandono da capital, a impopularidade de Rasputin (Rasputin e a czarina então passaram a governar a Rússia), a instabilidade causada pelos bolcheviques, a saída vergonhosa da Rússia na primeira guerra, foram algumas das causas da revolução que acabaria com o regime. Foram responsáveis, em grande parte, pelo fracasso do imperador em contornar a onda de descontentamentos que antecederam a Revolução Russa. A revolução estourou na Rússia em fevereiro de 1917 e foi concluída em outubro do mesmo ano. Rasputin tinha sido a Asa Negra do regime.
Como Prighozin, a “asa negra” de um regime fascista Putiniano. O “chef de Putin” que enriqueceu a servir-lhe refeições com os seus restaurantes e empresas de catering que fornecem serviços ao Kremlin. Interferiu, como Rasputin, na gestão do estado através de Putin, o ministério da defesa e do seu serviço de inteligência “GRU”. Controla uma rede de empresas influentes, incluindo a empresa mercenária russa Wagner e 3 empresas que interferiram nas eleições americanas. Afirma ter defendido o povo sírio, outros povos de países árabes, africanos e latino-americanos desamparados, em nome da “mãe Rússia”. Ou seja ajudou a reabilitar o orgulho duma Rússia “hemofílica”. Mas Prighozin, como Rasputin, tem coleccionado inimigos. Em outubro de 2022, ele disse sobre os comandantes do exército russo que “Todos esses bastardos deveriam ser enviados para a frente descalços com apenas uma submetralhadora”. Assim como insultou os membros do parlamento Russo que apoiam Putin chamando-os de “inúteis” e dizendo que “os deputados deveriam ir para a linha de frente”. Até elogiou a valentia dos defensores ucranianos de Bakhmut, talvez tentando justificar a sua ineficiência na conquista desta localidade pouco relevante para o esforço de guerra. O Grupo Wagner também já divulgou um vídeo mostrando os seus mercenários a usar uma marreta para matar um desertor numa troca de prisioneiros. Assim como é acusado de recrutar reclusos com a promessa de liberdade. Mas também de reclusos infetados com VIH com a promessa de tratamento com anti-virais. Cerca de um quinto dos reclusos enviados para combater na Ucrânia são seropositivos, mas o sistema prisional russo privou-os de medicamentos eficazes de que precisavam para sobreviver. Excepto se aceitarem ir para a frente de guerra durante 6 meses com o Grupo Wagner. A luta na Ucrânia em troca de um perdão e de acesso a anti-virais.
No entanto e mesmo acossados por Prighozin, os deputados russos aprovaram uma lei que prevê pesadas penas para quem “desacreditar” os grupos armados privados, como o Wagner, equiparando-os ao exército russo e que visa reprimir os críticos da ofensiva na Ucrânia. Podem passam a valer 15 anos de prisão. A cobardia da duma a proteger o “chef” que os atacou e desrespeitou. Este mesmo Grupo Wagner, que atua como quer no terreno de combate e com total autonomia, que tem mantido relações tensas com o Estado-Maior e o Ministério da Defesa da Rússia, acusando-os de incompetência ou mesmo de traição por falta de fornecimento de munições de artilharia. Mesmo assim o decadente vendedor de cachorros continua no seu auge. Enquanto Putin precisar dele…
Não vos parece uma história conhecida? Putin é o czar dos tempos modernos, até nisso a história se repete, pois ao alterar as regras constitucionais do seu país, conseguiu a proeza de permanecer na presidência até 2036, se quiser. Aliás a Rússia é profícua neste tipo de crueldades democráticas. Josef Stalin governou a URSS por cerca de 30 anos. Nesse tempo comandou genocídios, perseguições políticas e vários tipos de atrocidades. E a Ucrânia sofre hoje como sofreu sempre da crueldade russa, voltando agora a ter o seu novo “holodomor” mas em formato de invasão e genocídio militar. Stalin também mentiu “desalmadamente” como Putin, pois poucas semanas antes de a Alemanha invadir a Polônia e dar início à Segunda Guerra, Hitler e Stalin nas pessoas de seus respectivos diplomatas, Ribbentrop e Molotov, firmaram um pacto de não agressão. Deixando a Europa desprotegida do nazismo.
Talvez Rasputin e Prighozin tenham o mesmo destino, assim como o czar Nicolau II e Putin. O poder sem autoridade, foi bem representado por Kant:” o sábio pode mudar de opinião, o ignorante, nunca!”; portanto não esperemos que Putin mude de opinião. E será também bom lembrar Sartre que devia estar a pensar em carecas cruéis ao afirmar: “quando os ricos fazem a guerra, são os pobres que morrem”.



