Mesmo que a guerra no Médio Oriente terminasse amanhã, as companhias aéreas europeias e os passageiros ainda poderiam enfrentar um verão difícil. A perturbação no transporte de combustível proveniente dos países do Golfo, através do Estreito de Ormuz, está a pressionar os custos da aviação e a aumentar o risco de escassez precisamente no arranque da época alta de viagens, avança o ‘POLITICO’.
O problema é simples, mas potencialmente grave: a União Europeia não produz combustível de aviação suficiente para responder à procura interna. A capacidade de refinação europeia cobre, no máximo, 70% das necessidades das companhias aéreas. Se a passagem de petroleiros pelo Estreito de Ormuz continuar condicionada, as transportadoras terão de disputar abastecimento num mercado mais caro, mais incerto e mais vulnerável a ruturas.
Mesmo no melhor cenário, os preços não descem logo
O cenário mais favorável seria um fim rápido da guerra e a reabertura plena do Estreito de Ormuz. Ainda assim, isso não resolveria a crise de um dia para o outro. Os petroleiros vindos do Golfo continuariam a precisar de mais de um mês para chegar à Europa, o que significa que a normalização do abastecimento demoraria.
Willie Walsh, diretor-geral da Associação Internacional de Transporte Aéreo, alertou que, mesmo neste cenário, seriam necessários meses para repor os níveis de oferta necessários. A consequência mais provável seria a manutenção de preços elevados nos bilhetes durante o verão, ainda que se evitassem cancelamentos generalizados ou medidas políticas para travar a procura.
Frédéric Deleau, vice-presidente para a Europa da Federação Internacional das Associações de Controladores de Tráfego Aéreo, admite que, mesmo no melhor cenário, a Europa continuaria a enfrentar preços elevados do combustível durante a época alta. A diferença é que, neste caso, os aeroportos europeus seriam poupados a falhas de abastecimento em grande escala.
O cenário mais provável: combustível caro e oferta irregular
O cenário considerado mais provável por vários especialistas é o de uma resolução apenas parcial do conflito no início do verão, com a navegação pelo Estreito de Ormuz a retomar de forma irregular. Neste caso, o combustível de aviação continuaria caro e o abastecimento permaneceria incerto.
Esse cenário poderia levar ao cancelamento de voos com menor rentabilidade e a restrições pontuais de combustível em alguns aeroportos. As rotas de lazer de longo curso e as ligações regionais menos procuradas seriam, em princípio, as primeiras a ser sacrificadas.
Para os passageiros, o risco mais imediato não seria necessariamente ficar sem voo, mas pagar mais. A pressão sobre o combustível poderá traduzir-se em sobretaxas, menos promoções e uma redução de frequências em rotas menos lucrativas.
Andrew Charlton, diretor da consultora Aviation Advocacy, admite que os preços elevados já estão a levar algumas pessoas a ponderar alternativas, como viajar de carro ou optar por férias mais perto de casa. As companhias, por sua vez, tenderiam a proteger as rotas mais rentáveis e a cortar ligações regionais mais frágeis.
Companhias avisam: os custos vão chegar ao consumidor
As companhias aéreas já estão a preparar ajustamentos. A Lufthansa anunciou que irá cortar 20 mil voos nos próximos meses para reduzir o consumo de combustível, e outras transportadoras poderão seguir o mesmo caminho.
O aumento dos custos deverá também ser transferido para os passageiros. Sébastien Justum, vice-presidente sénior da Air France-KLM, afirmou num evento no Parlamento Europeu que as companhias são obrigadas a fazê-lo, sob pena de ficarem em risco financeiro em poucos meses.
O alerta mais sério veio da Agência Internacional de Energia. Fatih Birol, diretor executivo da organização, avisou que a Europa poderia ficar sem combustível de aviação no início de junho se as perturbações se agravassem.
Os aeroportos também ficam numa posição vulnerável. Não são eles que compram diretamente o combustível, mas são os pontos onde esse combustível tem de estar disponível para que as companhias operem. Se não houver abastecimento suficiente, as transportadoras deixam simplesmente de voar para esses aeroportos.
O pior cenário: racionamento de combustível
Se a perturbação no Estreito de Ormuz se prolongar durante todo o verão, o risco passa a ser outro: não apenas preços altos, mas falta física de combustível. A consultora Kpler alertou que os inventários europeus de combustível de aviação poderiam cair abaixo dos mínimos operacionais.
Nesse caso, o mercado poderia passar para uma fase de racionamento da procura. Marina Efthymiou, professora de aviação na Dublin City University, admite que uma escalada adicional poderia alterar completamente o panorama, sobretudo na Europa e na Ásia, regiões muito dependentes do petróleo do Médio Oriente.
O problema, sublinha, é que esta crise é mais grave do que um simples choque no preço do petróleo. Há duas pressões ao mesmo tempo: aumento de custos e risco real de falta de abastecimento.
Bruxelas prepara planos de contingência
A Comissão Europeia tem afastado o cenário mais extremo de escassez generalizada de combustível nos aeroportos da União Europeia, mas está a preparar planos de contingência. O comissário europeu dos Transportes, Apostolos Tzitzikostas, admitiu que os países poderão ter de partilhar reservas de emergência se surgirem falhas de abastecimento.
A preocupação não se limita aos passageiros. Se os cancelamentos ultrapassarem 10% do tráfego normal, o impacto poderá alastrar a todo o setor da aviação. Menos voos significam menos receitas para os prestadores de controlo de tráfego aéreo, ao mesmo tempo que as companhias acumulam perdas operacionais.
Segundo o ‘POLITICO’, as transportadoras de baixo custo poderão estar particularmente expostas. O modelo destas companhias depende de elevada utilização dos aviões, horários densos e procura sensível ao preço. Um choque prolongado no combustível ataca precisamente esses três pilares.
Verão de incerteza para quem vai viajar
Para já, a mensagem aos passageiros é clara: o verão europeu poderá ser marcado por bilhetes mais caros, menos descontos e eventuais cortes de rotas ou frequências. O grau de perturbação dependerá da duração da crise no Estreito de Ormuz e da rapidez com que o abastecimento de combustível de aviação voltar ao normal.
Mesmo no melhor cenário, a normalização demorará meses. No pior, a Europa poderá ter de gerir não apenas uma crise de preços, mas uma crise de abastecimento. Para as companhias aéreas, aeroportos e viajantes, isso significa que a guerra no Médio Oriente pode continuar a fazer-se sentir muito para lá do campo militar: no custo das férias, na disponibilidade de voos e na estabilidade de todo o setor da aviação.













