O investimento estrangeiro em Portugal continua a ganhar relevo num contexto internacional marcado pela reorganização de cadeias de valor, pela transição energética e pela crescente competição entre países para atrair capital e talento. A estabilidade institucional, a posição geográfica estratégica e a qualificação dos recursos humanos têm sido apontadas como fatores que reforçam a atratividade do país, ainda que persistam desafios ao nível da previsibilidade e da execução de processos administrativos.
É neste enquadramento que surgem novos movimentos de entrada de investidores internacionais no mercado português, em setores que vão da energia às infraestruturas e à tecnologia, refletindo uma leitura mais atenta do potencial de valorização de ativos ainda subexplorados.
Em entrevista à Executive Digest, Fernando Fraga, Country Manager da JTA International Investment Holding (uma holding de investimento e private equity sediada no Qatar) em Portugal, analisa as razões que tornam o país atrativo para o capital internacional, identifica os principais ativos ainda subvalorizados e traça o papel que Portugal poderá desempenhar nas estratégias globais de investimento nas próximas décadas.
O que tornou Portugal uma prioridade na expansão europeia da JTA International Investment Holding?
Portugal apresenta um crescimento económico consistente acima da média europeia, uma posição geográfica singular entre a Europa, o Atlântico e as rotas para África e América Latina, e ativos estratégicos que ainda não receberam a atenção internacional que merecem. Existe um desequilíbrio entre o que o país oferece e aquilo que o mercado ainda reconhece, e isso representa uma oportunidade com prazo. O momento de entrar é agora.
Quando apresentei esta leitura à JTA, a resposta foi imediata. Também me chamou a atenção a forma como decidiram entrar. Ao contrário da maioria dos fundos de dimensão semelhante, que operam em Portugal através de representantes regionais que cobrem vários mercados em simultâneo, a JTA optou por uma presença permanente e dedicada, com mandato para construir pipeline local e parcerias de longo prazo. Para mim, isto é um sinal claro da forma como leem este mercado, não como mais um país a monitorizar à distância, mas como uma oportunidade que justifica foco exclusivo.
Que fatores concretos diferenciam Portugal de outros mercados europeus onde a JTA poderia investir?
Identifico três fatores principais. O primeiro é o desfasamento entre a qualidade dos ativos e o volume de capital internacional que efetivamente entra. Portugal atrai consistentemente menos investimento direto estrangeiro per capita do que mercados comparáveis como Espanha ou Irlanda, apesar da qualidade dos ativos disponíveis, e esse diferencial representa uma oportunidade real que conheço bem por trabalhar dos dois lados.
O segundo fator é a estabilidade político-institucional e a fiabilidade do quadro legal, que são pré-condições inegociáveis para investidores de longo prazo. Portugal mantém de forma consistente posições sólidas nos índices internacionais de ambiente de negócios e de Estado de direito.
O terceiro é o capital humano. Vejo em Portugal uma massa crítica de talento e de empreendedorismo que é sistematicamente subestimada pelos mercados de capital. O país tem uma das maiores percentagens de licenciados em engenharia e tecnologia na Europa e é um dos destinos de nearshoring de referência a nível mundial. Este ativo intangível tem um peso significativo quando se pensa em décadas e não apenas em trimestres.
Que critérios pesam mais na decisão de investimento: retorno financeiro, impacto estratégico ou transformação estrutural?
A convicção com que trabalho é que retorno financeiro sustentável e impacto transformador real não são opostos, mas complementares. Projetos que transformam estruturalmente um setor ou uma comunidade tendem a gerar retornos mais robustos e duradouros do que operações puramente financeiras com pressão de saída a três ou cinco anos.
A pergunta que coloco sempre no início é se o projeto pode ser icónico e se pode criar valor real para todas as partes. Se a resposta for afirmativa, o ticket e o setor tornam-se questões que se resolvem na negociação. Se a resposta for negativa, não há estrutura financeira que o compense.
Quais os sectores prioritários de investimento no mercado português?
Os setores onde vejo mais oportunidades reais são tecnologia e inovação, transição energética, infraestruturas e imobiliário. No entanto, não trabalho com restrição setorial, sigo a oportunidade.
O que define a prioridade na minha análise é sempre a combinação entre potencial transformador, alinhamento com um horizonte de longo prazo e capacidade de gerar parcerias genuinamente vantajosas para todas as partes envolvidas.
Quais são os principais “ativos escondidos” de Portugal que ainda não estão devidamente valorizados pelos investidores internacionais?
Identifico pelo menos três. A capacidade para produção de energia renovável muito além do que está atualmente explorado, incluindo o hidrogénio verde, onde o país tem condições naturais excecionais.
O turismo. Portugal é já uma referência mundial, mas existe uma camada de projetos de grande escala, únicos e com potencial transformador, que ainda não foram desenvolvidos e que o capital internacional de maior dimensão ainda não descobriu.
E o imobiliário e as infraestruturas em cidades médias. Existem ativos com dimensão e qualidade suficientes para operações transformadoras que ainda não estão no radar do capital internacional de grande escala.
No entanto, o ativo mais subestimado de todos é transversal a estas áreas: a capacidade de Portugal combinar tecnologia de topo com grandes projetos de investimento. Esta ligação ainda não foi plenamente explorada, e quem o fizer primeiro criará uma vantagem difícil de replicar noutros mercados europeus com ativos comparáveis.
E, pelo contrário, quais são os maiores entraves ao investimento estrangeiro no país?
A lentidão nos processos de licenciamento é o tema central, mas a principal preocupação não é apenas a demora. É a falta de previsibilidade.
As regras existem e são claras, mas o problema está na execução. Há prazos que sistematicamente não são cumpridos, uma cadeia de aprovações com demasiados pontos de fricção e uma capacidade de resposta institucional que não acompanha a escala e a velocidade exigidas pelos investidores internacionais.
Um investidor consegue planear com prazos longos. O que não consegue gerir é a incerteza sobre quando e em que condições um processo será concluído. Enquanto Portugal não resolver este problema de execução, continuará a perder projetos, não para mercados com melhores ativos, mas para mercados onde o processo é mais previsível.
O que é que os investidores estrangeiros ainda não perceberam sobre o mercado português?
Apresento Portugal regularmente a investidores asiáticos e do Médio Oriente, no âmbito do meu trabalho quotidiano através da Second Wings e da Iberipak. O que observo de forma consistente é que a imagem que têm do país está desatualizada e ainda muito associada ao turismo e ao imobiliário residencial.
O que ainda não chegou a esses mercados é a existência de um país em transformação, com empresas tecnológicas de referência, capacidade instalada em setores estratégicos e infraestruturas que podem servir de base a operações de escala europeia.
Além disso, os ativos disponíveis em Portugal, quando comparados com os do norte e centro da Europa, continuam a representar uma oportunidade real de valorização. Quem entrar daqui a cinco anos encontrará um mercado substancialmente diferente.
Quais os investimentos que estão em cima da mesa a curto prazo e qual a dimensão financeira dos mesmos?
Tenho neste momento um pipeline inicial de mais de uma centena de milhões de euros em projetos em qualificação ativa. No entanto, o número em si é menos relevante do que o critério com que esse pipeline está a ser construído. Prefiro avançar com menos projetos, mas com maior convicção, do que acumular oportunidades que não resistem a uma análise exigente.
A JTA não assume compromissos antes de estar numa fase muito avançada de análise, e partilho plenamente essa abordagem. A ambição é que os investimentos que venham a concretizar-se sejam suficientemente relevantes para, além do impacto económico direto, criarem condições para que Portugal se afirme como uma base de operações europeias de referência para a JTA. É com esse horizonte que trabalho.
Que papel poderá Portugal desempenhar na estratégia global da JTA nos próximos 5 a 10 anos?
Nos próximos cinco a dez anos, vejo Portugal a assumir um papel que vai muito além de um simples destino de investimento. A sua posição geográfica, a estabilidade institucional e as relações históricas com África, o Brasil e os países lusófonos criam uma plataforma única para uma holding com presença global como a JTA.
Não se trata apenas de investir em Portugal, mas de utilizar o país como ponto de entrada e de coordenação para operações que ligam o Atlântico ao Médio Oriente e à Ásia.
Se, nos próximos dois a três anos, se materializar o que está atualmente em construção, acredito que o grupo reconhecerá esse potencial e reforçará significativamente o seu compromisso com o mercado. É essa a visão que orienta o meu trabalho.



