O ADN dos neandertais ainda vive em nós. E pode estar a atrapalhar a defesa contra alguns vírus

Todos os seres humanos não africanos vivos hoje carregam entre 2% e 4% de ADN neandertal. É uma herança antiga, recebida há dezenas de milhares de anos, mas que continua a influenciar a nossa biologia. E nem sempre pelas melhores razões

Francisco Laranjeira

Todos os seres humanos não africanos vivos hoje carregam entre 2% e 4% de ADN neandertal. É uma herança antiga, recebida há dezenas de milhares de anos, mas que continua a influenciar a nossa biologia. E nem sempre pelas melhores razões.

Num texto divulgado pelo ‘IFL Science’, nova investigação sugere que algumas variantes genéticas herdadas dos neandertais podem dificultar a capacidade do sistema imunitário para controlar certos vírus de ADN. A descoberta é curiosa porque contrasta com estudos anteriores, que tinham mostrado precisamente o contrário no caso dos vírus de ARN: aí, algumas variantes neandertais pareciam reforçar as defesas do organismo.

A diferença pode estar no tipo de infeção. Os vírus de ARN tendem a causar infeções mais agudas e localizadas. Já os vírus de ADN podem permanecer no organismo durante muitos anos, muitas vezes sem sintomas, provocando efeitos mais tardios, sistémicos ou crónicos.

Para perceber de que forma a herança neandertal afeta esta resposta, os investigadores analisaram dados registados no UK Biobank e procuraram relações entre variantes genéticas arcaicas e a carga viral de vários vírus de ADN. O estudo centrou-se no vírus Epstein-Barr, no Herpesvírus Humano 7 e em três torque teno vírus.

Estes vírus podem ficar silenciosos durante anos no organismo. Por isso, a carga viral é um indicador importante: quanto mais elevada, menor poderá ser a capacidade do sistema imunitário para travar a replicação desses agentes.

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O resultado foi claro. A equipa encontrou uma associação entre ADN neandertal e cargas virais mais elevadas nos cinco vírus analisados. Depois de aprofundar os dados, os investigadores identificaram 18 regiões genéticas em que variantes arcaicas pareciam estar particularmente ligadas a esse aumento.

Uma defesa antiga contra inimigos diferentes

A maioria destas regiões foi encontrada no chamado Complexo Principal de Histocompatibilidade, conhecido pela sigla MHC, um conjunto de genes que codifica proteínas na superfície das células e ajuda o sistema imunitário a reconhecer e destruir células infetadas.

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Foram ainda identificados dois grupos de variantes neandertais no cromossoma 17 e um haplótipo denisovano no MHC também associado a cargas virais mais elevadas.

Michael Dannemann, coautor do estudo e professor associado de genómica evolutiva, afirmou que os resultados sugerem que variantes herdadas dos neandertais podem não oferecer uma defesa eficaz contra vários vírus de ADN nos seres humanos atuais. Segundo o investigador, essa conclusão contrasta de forma marcante com os efeitos benéficos já observados na imunidade contra vírus de ARN.

A explicação pode estar no mundo para o qual essas defesas foram originalmente moldadas. Os neandertais enfrentavam vírus do Paleolítico, muito diferentes dos que circulam hoje. Uma variante genética útil contra antigos agentes infecciosos pode não ser eficaz contra vírus modernos, sobretudo quando estes se comportam de forma diferente no organismo.

O ‘IFL Science’ nota que os próprios autores do estudo admitem essa cautela: os efeitos observados hoje nas cargas virais de vírus de ADN podem não refletir exatamente o que acontecia há dezenas de milhares de anos, quando outras estirpes circulavam.

A herança que protege e complica

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A descoberta não significa que o ADN neandertal seja “mau” para o sistema imunitário. A história é mais complexa. Algumas variantes herdadas dos nossos primos extintos podem ter sido úteis em determinados contextos e contra determinados tipos de vírus. Outras, no mundo atual, podem ter perdido eficácia ou até tornar-se menos vantajosas.

Os investigadores colocam a hipótese de os sistemas imunitários dos neandertais estarem mais bem adaptados a infeções agudas do que a infeções crónicas. Ou seja, poderiam estar melhor preparados para responder rapidamente a certos vírus, mas menos otimizados para controlar agentes que permanecem no organismo durante longos períodos.

É essa a ironia evolutiva. O que um dia ajudou a sobreviver pode, noutro contexto, deixar de ser uma vantagem. O ADN neandertal continua connosco, mas o mundo viral mudou.

O estudo, publicado na revista ‘Genome Biology and Evolution’, acrescenta mais uma peça ao retrato da nossa relação com os neandertais. Eles não desapareceram por completo. Parte deles continua inscrita no nosso genoma, a influenciar pele, metabolismo, imunidade e resposta a doenças.

Neste caso, a herança é quase uma recordação biológica de outro tempo: uma defesa criada para um mundo antigo, mas que ainda tenta funcionar num planeta cheio de vírus modernos.

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