O El Niño está oficialmente instalado e deverá continuar a ganhar força nos próximos meses, podendo tornar-se um dos episódios mais intensos de que há registo. Os sinais são de tal forma invulgares que um dos principais especialistas do Met Office admite nunca ter visto nada semelhante nos modelos de previsão.
“Devemos deixar claro que este é um acontecimento sem precedentes. Nunca vi um sinal de El Niño tão intenso nas nossas previsões”, alerta Adam Scaife, chefe de previsão a longo prazo do serviço meteorológico britânico, citado pelo ‘The Independent’.
O alerta coincide com uma nova atualização da Organização Meteorológica Mundial (OMM), divulgada esta quinta-feira: existe uma probabilidade “excecionalmente elevada, de quase 100%” de o El Niño persistir até fevereiro de 2027. É a primeira vez que a organização apresenta uma previsão deste género com um grau de certeza tão elevado.
E as consequências poderão sentir-se muito para além do Pacífico: temperaturas mais elevadas, secas, cheias, incêndios e alterações profundas nos padrões de precipitação são alguns dos riscos associados a um fenómeno desta dimensão.
Pacífico está muito mais quente
O El Niño é um fenómeno natural que ocorre normalmente a cada dois a sete anos e está associado ao aquecimento das águas superficiais do Pacífico Equatorial central e oriental.
Essa alteração aparentemente localizada consegue modificar a circulação atmosférica e, consequentemente, os padrões de temperatura e precipitação em várias regiões do planeta.
Em 2026, porém, os valores estão a assumir dimensões excecionais.
Segundo os dados citados pelo ‘The Independent’, a anomalia da temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 passou de cerca de 1,5 graus Celsius acima do normal em maio e junho para 2 graus em julho e 2,6 graus em meados de agosto. Abaixo da superfície foram detetadas anomalias superiores a 8 graus durante julho e início de agosto.
Um El Niño normal provoca um aumento da temperatura superficial do mar entre 1 e 2 graus, explica Adam Scaife, sendo que uma anomalia de 2 graus já representa um episódio particularmente significativo.
As previsões mais recentes da OMM são ainda mais impressionantes: a média da anomalia na região Niño 3.4 poderá chegar a aproximadamente 3,6 graus entre setembro e novembro, com a intensificação a atingir o pico entre novembro e dezembro.
“O El Niño está a ganhar proporções gigantescas”
O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, também deixou um aviso perante os novos dados.
“O El Niño está a ganhar proporções gigantescas diante dos nossos olhos”, afirmou, acrescentando que o planeta entrou em “águas desconhecidas” à medida que as temperaturas dos oceanos continuam a aumentar.
A OMM espera que o fenómeno atinja uma intensidade “muito forte” antes de chegar ao pico no final deste ano, com impactos climáticos que deverão prolongar-se por 2027.
A organização salienta, contudo, uma distinção importante: um El Niño extremamente intenso não significa automaticamente que todas as regiões sofrerão fenómenos meteorológicos igualmente extremos. A intensidade dos efeitos depende da localização, da época do ano e da interação com outros fenómenos climáticos.
2027 pode tornar-se o ano mais quente de sempre
Uma das consequências mais abrangentes poderá aparecer no termómetro global.
O El Niño transfere uma quantidade adicional de calor do oceano para a atmosfera e provoca normalmente uma subida temporária da temperatura média do planeta.
Nick Dunstone, investigador do Met Office, considera por isso “muito provável” que 2027 ultrapasse 2024 e se transforme no ano mais quente desde que existem registos, voltando a colocar temporariamente a temperatura média global acima de 1,5 graus relativamente ao período pré-industrial.
Mas os efeitos serão muito diferentes consoante a região do planeta.
Cheias de um lado, seca do outro
O Pacífico oriental deverá receber mais precipitação. Chile e Peru estão entre os países que poderão enfrentar chuvas torrenciais, cheias e deslizamentos de terras.
O sudoeste dos EUA também poderá registar condições particularmente húmidas, incluindo na Califórnia, onde episódios de El Niño estão historicamente associados a um risco acrescido de inundações e movimentos de terras.
Do outro lado do Pacífico poderá acontecer precisamente o contrário.
Indonésia, Austrália, sul de África, América Central, ilhas do Pacífico Ocidental e zonas tropicais da América do Sul encontram-se entre as regiões onde aumenta o risco de seca.
Na Austrália, o calor extremo poderá agravar a seca e favorecer incêndios florestais, enquanto a Indonésia já está a sentir temperaturas elevadas associadas ao fenómeno.
Na Índia, o El Niño está igualmente a deixar marcas: o país caminha para uma das épocas de monções mais fracas das últimas duas décadas, segundo o ‘The Independent’, embora episódios individuais de precipitação possam tornar-se mais intensos.
E na Europa?
A relação entre El Niño e o clima europeu é bastante menos direta do que nas regiões próximas do Pacífico tropical.
No Reino Unido, os episódios de El Niño têm sido historicamente associados a maior probabilidade de condições tempestuosas, húmidas, ventosas e relativamente amenas durante o outono e início do inverno, podendo posteriormente surgir períodos mais frios.
Bill McGuire, professor emérito de riscos geofísicos e climáticos da University College London, alerta que a dimensão do episódio atual introduz uma enorme incerteza.
“Não sabemos se o facto de este El Niño ser inédito na história moderna dará mais força às tempestades e provocará inundações extremas”, explica. O especialista ressalva que não existe uma relação direta entre a intensidade de um determinado El Niño e a gravidade dos seus efeitos regionais.
É precisamente essa incerteza que acompanha agora um fenómeno cuja evolução está a ultrapassar aquilo que os meteorologistas estão habituados a observar.
A OMM considera praticamente certo que o El Niño continuará até fevereiro de 2027. E Adam Scaife resume a dimensão daquilo que os modelos estão a mostrar: se as previsões se confirmarem, 2026 ficará muito para lá da experiência recente com o fenómeno e com a sua influência sobre o clima mundial.


















