O número de creches a funcionar com horário alargado em Portugal aumentou 42% nos últimos cinco anos, atingindo um total de 1806 unidades, segundo dados do Ministério do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social (MTSSS). Este crescimento tem sido impulsionado pela crescente procura por soluções de acolhimento infantil que se ajustem às rotinas laborais prolongadas de muitos pais. Em Lisboa (322 creches) e no Porto (255), a oferta é maior, refletindo a concentração populacional e a procura mais elevada nestas áreas, segundo noticia o jornal Público.
Um exemplo deste fenómeno é o “Clube dos Pequenos”, uma creche de horário alargado em Braga, que abriu portas a 16 de dezembro de 2024 e registou uma procura quatro vezes superior às vagas disponíveis. O equipamento, que integra berçário e creche, funciona entre as 6h30 e a meia-noite e meia, permitindo aos pais maior flexibilidade na gestão dos horários. Ana Veloso, uma das mães beneficiadas, explica que, antes de conseguir uma vaga para o filho William, teve de recusar oportunidades de trabalho por não ter onde deixá-lo. “Quando consegui esta vaga fiquei mesmo contente porque pensei que não ia conseguir. Muitas vezes recusava trabalho para poder ficar com ele”, relata ao mesmo jornal.
Apesar da grande procura, nem todas as crianças permanecem na creche durante o período total de funcionamento. A diretora técnica do “Clube dos Pequenos”, Ana Névoa, sublinha que a maioria dos pais opta pelo horário convencional, mas sente maior segurança ao saber que podem contar com o serviço em caso de necessidade. “Os pais têm demonstrado estar muito satisfeitos. Mesmo os que estão no horário convencional sabem que podem confiar”, afirma. Além disso, a legislação portuguesa estabelece que nenhuma criança deve frequentar a creche por mais de 11 horas diárias, garantindo um equilíbrio entre tempo escolar e familiar.
A oferta de creches com horário alargado tem sido particularmente relevante para profissionais de saúde e de outros setores com turnos irregulares. O “Clube dos Pequenos”, por exemplo, é uma iniciativa do Centro Social do Vale do Homem (CSVH), uma Instituição Particular de Solidariedade Social (IPSS), pensada para apoiar trabalhadores do Hospital de Braga e da Universidade do Minho, mas aberta a toda a comunidade. O presidente do CSVH, Jorge Pereira, revelou ao PÚBLICO que está previsto o alargamento da capacidade e a abertura de uma nova creche em Braga. “Este é o nosso primeiro edifício nesta área, entre outros que vamos ter. E estamos a preparar com a junta de freguesia para avançar para a construção de outra creche”, adianta. O projeto é financiado pelo Governo através do programa Creche Feliz, sendo gratuito para as famílias.
Esta tendência não se limita a Braga. Outras unidades de saúde têm promovido estruturas semelhantes para apoiar a parentalidade dos seus profissionais. Em Coimbra, a creche “O Caracol” funciona no campus dos Hospitais da Universidade de Coimbra, enquanto na Covilhã a “Creche Saudável” opera no Centro Hospitalar Universitário da Cova da Beira. No Porto, o Centro Hospitalar Santo António está a planear um equipamento semelhante, enquanto em Leiria a comunidade intermunicipal vai investir 1,2 milhões de euros para construir uma creche no Hospital de Santo André, com capacidade inicial para 50 crianças e horários adaptados às necessidades dos profissionais.
A Ordem dos Médicos tem defendido a criação de uma rede nacional de creches e centros de atividades de tempos livres para filhos de médicos e outros profissionais de saúde. Num parecer enviado à Assembleia da República, a organização propôs ainda o reconhecimento da medicina como uma profissão de “desgaste rápido”, reforçando a necessidade de medidas que melhorem a qualidade de vida dos trabalhadores do setor. A expansão das creches com horário alargado reflete, assim, uma resposta crescente a desafios laborais e familiares, procurando garantir soluções de apoio que acompanhem as dinâmicas da sociedade atual.









