Uma semana após o apagão que deixou grande parte da Península Ibérica sem eletricidade durante várias horas, continuam a surgir novas informações sobre as causas do incidente. A terceira vice-presidentedo Governo espanhol e ministra para a Transição Ecológica e o Desafio Demográfico, Sara Aagesen, revelou esta segunda-feira que ocorreu uma terceira perda de geração elétrica 19 segundos antes da falha total do sistema — fenómeno conhecido como “zero energético” — que viria a afetar não apenas Espanha, mas também Portugal.
Segundo a governante espanhola, esta nova perda de geração teve origem em várias instalações no sul de Espanha e soma-se aos dois incidentes anteriormente identificados em centrais no sudoeste do país. “A novidade é que, quando aprofundámos a análise, quisemos olhar não apenas para os cinco segundos em que ocorreram os dois eventos já comunicados pela Red Eléctrica, mas também para os minutos anteriores. Verificámos que, 19 segundos antes, houve também uma perda de geração. Portanto, trata-se de mais uma perturbação a juntar às outras duas”, declarou Aagesen.
Apesar de o epicentro técnico da falha ter sido detetado em território espanhol, a sua repercussão foi sentida em toda a rede elétrica ibérica, dada a elevada interligação entre os dois países. O sistema energético português também foi afetado, com cortes de eletricidade reportados em várias regiões, incluindo Lisboa, Porto, Braga e Faro. A REN – Redes Energéticas Nacionais, responsável pela gestão da infraestrutura elétrica portuguesa, confirmou que o apagão teve origem fora do território nacional, mas teve impacto direto devido à sincronização dos sistemas elétricos de ambos os países.
A ministra Aagesen esclareceu ainda que, até ao momento, não existem evidências de falha estrutural numa instalação específica. Foram identificados três momentos distintos de perda de geração: o primeiro, 19 segundos antes do colapso total; o segundo, no sudoeste de Espanha; e o terceiro, 1,3 segundos depois. “Estamos a trabalhar para identificar quais as instalações envolvidas e, sobretudo, o que causou estas falhas”, frisou.
Com o objetivo de evitar novos apagões, o Governo espanhol está a reforçar a gestão do sistema elétrico nacional e ibérico. Estão a ser implementados novos mecanismos de deteção precoce de anomalias e de resposta imediata, bem como sistemas de proteção contra ciberataques. “Temos de compreender se há relação entre os eventos, qual a causa e a consequência, e porque é que o sistema não conseguiu amortecer o impacto”, referiu Aagesen.
O Comité de Análise das Circunstâncias da Crise Energética, que se reúne novamente esta tarde, irá analisar mais de 750 milhões de dados recolhidos a cada 20 milissegundos do funcionamento da rede. São esperadas novas informações ao longo do dia, provenientes de operadores, distribuidores e produtores de energia com potência superior a 1.000 megawatts (MW).
Do lado português, a REN informou que está em estreita colaboração com a Red Eléctrica de España para apurar as causas exatas do apagão. Também a Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE) solicitou esclarecimentos formais e poderá vir a tomar medidas adicionais para reforçar a resiliência do sistema elétrico nacional.
Na semana passada, a Red Elétrica descartou a possibilidade de um ciberataque à empresa, mas o Governo espanhol disse que todas as hipóteses continuam em aberto e que há dezenas de operadores no sistema elétrico, com “mais de 30 centros de operação” em todo o país.
“Há ainda muitas coisas por identificar”, disse hoje a ministra, que defendeu que “a palavra prudência” é a melhor para este momento, apelando de novo para que não haja especulações em relação às causas do apagão.
A ministra voltou também a descartar que um excesso de energias renováveis no sistema tenha sido a causa do problema e considerou que esta explicação é “muito simplista”, porque o sistema elétrico é complexo e “estão em jogo muitas variáveis” que é preciso analisar na totalidade.
Por outro lado, negou que as empresas de energia presentes no mercado espanhol tenham alertado, nos dias e semanas anteriores ao apagão, para alguma situação “relacionada com o incidente” de 28 de abril, numa referência a notícias que têm sido publicadas nos últimos dias por alguns meios de comunicação em Espanha.
Um corte generalizado no abastecimento elétrico afetou na segunda-feira, durante cerca de 10 a 11 horas, Portugal e Espanha, continuando sem ter explicação por parte das autoridades.
Aeroportos fechados, congestionamento nos transportes e no trânsito nas grandes cidades e falta de combustíveis foram algumas das consequências do apagão.
A Rede Europeia de Gestores de Redes de Transporte de Eletricidade anunciou na semana passada a criação de um comité para investigar as causas do ‘apagão’ “excecional e grave” na Península Ibérica.
A organização disse que vai “investigar as causas essenciais, elaborar uma análise exaustiva e avançar com recomendações num relatório final”.
*Com Lusa













