Mais de dois mil milhões de pessoas vivem atualmente em países classificados na “zona vermelha” da vulnerabilidade climática, segundo um novo índice desenvolvido pela Columbia Climate School, nos Estados Unidos, com o apoio da The Rockefeller Foundation. Entre os 65 países mais expostos a choques climáticos e com acesso limitado a financiamento, destacam-se dois Estados europeus: Chipre e Ucrânia.
O Climate Finance (CliF) Vulnerability Index, lançado esta semana, propõe uma abordagem mais abrangente para avaliar os riscos climáticos, incorporando não apenas a exposição a fenómenos extremos, mas também a capacidade financeira dos países para lidar com esses desafios. A intenção é clara: fornecer uma ferramenta que permita orientar melhor o apoio internacional, especialmente a países que vivem, como alertam os investigadores, “a um desastre de distância de uma crise humanitária”.
Do total dos países incluídos na zona de maior risco, 43 situam-se em África, o que representa cerca de 66% do total. A lista inclui países como Angola, Burundi, Guiné-Bissau, Eritreia, Lesoto, Malawi, Sudão do Sul, Sudão, Zâmbia e Gâmbia — todos presentes nas piores classificações do índice em quatro cenários distintos: projeções até 2050 e 2080, tanto em cenários “otimistas” como “pessimistas”.
A presença de Chipre e Ucrânia na zona vermelha, ainda que surpreendente à primeira vista, é explicada pelos autores através da inclusão de riscos não diretamente relacionados com o clima, mas que afetam gravemente os sistemas de adaptação e resposta a catástrofes. No caso de Chipre, a vulnerabilidade está ligada à sua exposição sísmica. Já a Ucrânia encontra-se fragilizada pela guerra em curso com a Rússia.
“Estes fatores não climáticos têm um impacto considerável na capacidade de gestão de desastres, nos sistemas de adaptação e na pressão sobre os recursos financeiros”, explicou um porta-voz da Columbia Climate School e da Rockefeller Foundation, citado pela Euronews Green.
Índice quer redefinir a forma como a ajuda internacional é distribuída
De acordo com Jeff Schlegelmilch, professor associado da Columbia Climate School e diretor do National Centre for Disaster Preparedness, os modelos tradicionais de ajuda, muitas vezes baseados apenas no rendimento per capita ou no PIB, “não captam os riscos únicos e crescentes da exposição climática combinada com o acesso limitado a capital”.
“Os choques climáticos são cada vez mais frequentes e intensos, e muitos dos países mais ameaçados estão fortemente endividados, o que limita o seu acesso a mercados financeiros”, acrescentou Schlegelmilch. “O CliF Vulnerability Index oferece uma imagem mais realista do risco, incluindo o acesso ao financiamento necessário para enfrentar essas vulnerabilidades.”
O índice surge numa altura em que o financiamento internacional para a adaptação climática está longe de corresponder às necessidades reais. O Programa das Nações Unidas para o Ambiente (UNEP) estima que o défice de financiamento anual para adaptação pode atingir os 387 mil milhões de dólares (cerca de 331 mil milhões de euros).
Por outro lado, o Fórum Económico Mundial prevê que as catástrofes climáticas possam causar mais de 14,5 milhões de mortes e 12,5 biliões de dólares (cerca de 10,7 biliões de euros) em perdas económicas até 2050.
De acordo com Eric Pelofsky, vice-presidente para a Recuperação Económica Global na Rockefeller Foundation, o novo índice poderá ter um papel crucial na reformulação das prioridades de ajuda internacional. “Ao utilizar o CliF Vulnerability Index, os doadores e financiadores podem priorizar o apoio a países que estão potencialmente a um desastre de distância de uma crise”, afirmou, sublinhando a importância do tema antes da Quarta Conferência Internacional sobre o Financiamento do Desenvolvimento, que se realiza na próxima semana, em Sevilha.
Embora Chipre e Ucrânia figurem entre os mais vulneráveis, os países europeus continuam a estar entre os melhor preparados para enfrentar choques climáticos. Entre os dez mais resilientes, segundo o índice, destacam-se Dinamarca, Estónia, Noruega, Suíça e Suécia, todos membros da OCDE, juntamente com Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos.
O índice complementa o trabalho de outras instituições, como sublinha Saliem Fakir, diretor executivo da African Climate Foundation, ao destacar que o novo instrumento “reforça a urgência de soluções sistémicas para adaptação em África, especialmente em países em situação de elevado endividamento”.














