Os esgotos da cidade de Nova Iorque, nos Estados Unidos, tem sido o ‘habitat’ de linhagens desconhecidas do vírus que causa a Covid-19, o que levanta novas preocupações de que o coronavírus esteja a encontrar formas de escapar à imunidade. Não há evidências de que possam causar uma nova onda e a sua proporção aumentou e diminuiu ao ritmo dos casos positivos na Big Apple, assim como não há sinais de que se estejam a tornar mais comuns ao longo do tempo. Mas as mutações observadas são semelhantes àquelas que permitiram que a variante Ómicron tenha escapado parcialmente da imunidade da vacinação e infeção anterior, segundo explicou John Dennehy, virologista do The Graduate Center da Universidade de Nova Iorque.
“O facto de a Ómicron ter vindo de um lugar desconhecido e partilhar algumas das mutações que assistimos com a variante desconhecida que vemos em Nova York representa uma preocupação muito séria de que o que estamos a assistir possa encontrar a combinação certa de mutações que o tornariam altamente transmissível”, frisou o virologista, em declarações à ‘Live Science’.
Mais preocupante? Os investigadores não sabem de onde vêm estas novas linhagens virais. Estas são encontradas apenas em algumas áreas limitadas da cidade e não parecem estar a espalhar-se de bairro para bairro – podem surgir de humanos cronicamente infetados ou talvez de um reservatório animal – ainda não há evidências para qualquer uma das opções.
Muitas cidades monitorizam as águas residuais para rastrear a quantidade de SARS-CoV-2 que circula na comunidade. As pessoas ‘libertam’ o vírus antes de se sentirem doentes ou serem testadas e os níveis do vírus nos esgotos precedem o aumento do número de casos que aparecem nos testes em cerca de três semanas, apontou Marc Johnson, virologista da Faculdade de Medicina da Universidade de Missouri.
Mas não há muitos locais que façam o sequenciamento genético dos vírus encontrados nas águas residuais. Marc Johnson era responsável pelo sequenciamento no estado americano do Missouri e relatou as diversas sequências de RNA virais sem correspondência nos bancos de dados globais das variantes do coronavírus. “Estava a ficar louco”, reconheceu o cientista. No entanto, as variantes do Missouri desapareceram em abril de 2021 para nunca mais serem vistas.
Mas os investigadores começaram a colaborar no sequenciamento mais completo do RNA viral encontrado em Nova Iorque
“Eu estava a ficar louco”, disse Johnson ao Live Science.
As variantes do Missouri desapareceram no final de abril de 2021, para nunca mais serem vistas. Mas os pesquisadores começaram a colaborar no sequenciamento mais completo do RNA viral descoberto na cidade de Nova Iorque e encontraram um conjunto de sequências completamente novas. Foram testadas águas residuais de todas as 14 estações de tratamento, duas vezes por mês.
Foram estudadas quatro dessas linhagens desconhecidas, apelidadas de WNY1, WNY2, WNY3 e WNY4 e todas continham a habilidade para evadir parcial ou completamente os anticorpos que facilmente capturam o SARS-CoV-2 original – embora o plasma sanguíneo de pessoas vacinadas ou com infeções anteriores pudesse neutralizar parcialmente as quatro linhagens, essa neutralização foi reduzida em comparação com o vírus original. “Eram mutações exatamente onde seriam de esperar encontrar, se o vírus estivesse a tentar escapar de uma resposta imune”, precisou Johnson.
Mas, então, de onde vêm estas linhagens misteriosas?
Existem algumas hipóteses. Podem vir de infeções humanas não amostradas – apenas entre 2,6% e 12,9% dos casos de Nova Iorque são sequenciados, pelo que é possível que variantes raras do vírus possam passar despercebidas. O alcance geográfico das linhagens virais é limitado – são encontradas nas áreas de captação em apenas três das 14 estações de tratamento de águas residuais da cidade.
Outra possibilidade é que o portador destas linhagens não seja humano. As mutações observadas nos clusters são vistas numa região do genoma associada ao vírus, tornando-se mais adepto de infetar roedores (que não são facilmente infectados pelo coronavírus original). Os ratos da cidade de Nova Iorque seriam um alvo atraente. Mas não há uma evidência forte que ligue os ratos à variante. Também foi encontrado material genético de gatos, cães, entre outros, embora nenhum tenha sido altamente prevalente.
A variante Ómicron parece ter surgido do nada: evoluiu de uma linhagem anterior à variante Delta que era, na época, dominante. Para os investigadores, a origem da próxima variante também permanecerá um mistério, a menos que seja feito um esforço mais robusto para entender de onde vêm as variantes. “O que estamos a assistir aqui é o mecanismo ou mecanismos potenciais através do qual surgem as novas variantes. E é aqui que devemos fazer as nossas pesquisas”, finalizaram os especialistas.



