Nova crise do petróleo: consumo global com tombo sem precedentes, cai para níveis de 1969

Em meados de abril passado o setor petrolífero mergulhou num cenário que era difícl de antever, antes do despoletar da crise da pandemia da Covid-19. E os preços do petróleo caíram para -37 dólares por barril.

Diante de uma queda brutal na procura, a capacidade de armazenamento começou a esgotar-se, logo, o preço caiu para terreno negativo: por estes dias, era mais barato para as operadoras pagar para armazenar 150 milhões de barris do que vender a estes preços. E tudo indicava que o consumo global de combustível estava a sofrer convulsões nunca vistas no último meio século.

No fatídico dia 20 de abril, o barril de Brent, a referência para os preços globais, caiu abaixo dos 20 dólares quando pouco tempo antes, em fevereiro, estava muito perto dos 60 dólares.

Existem muitos tipos diferentes de combustível extraídos do petróleo, que vão desde a gasolina usada nos automóveis ao querosene nos aviões ou ao combustível que impulsiona os navios de carga. Todos sofreram uma paragem global como resultado da pandemia, embora em alguns casos tenha sido mais devastador do que noutros.

Segundo explicou Fernando Prieto, diretor do Observatório de Sustentabilidade, ao ‘El Confidencial’, “nem a gasolina nem o querosene tiveram recordes tão baixos, indicam os registos das séries desde 1969, ou seja, nem na crise do petróleo”.

O especialisra referia-se à crise de 1973, altura em que a Organização dos Países Exportadores de Petróleo Árabe fechou a torneira aos países que apoiaram Israel na guerra do Yom Kipur contra a Síria e o Egito. Como resultado, nos Estados Unidos e na Europa o preço do petróleo subiu, o consumo global caiu e a economia entrou em colapso.

Agora a situação é muito diferente, embora alguns dos ingredientes do desastre sejam semelhantes.

Gasolina
A gasolina atingiu o pico em agosto de 1994, quando, de acordo com dados compilados pela Strategic Reserves Corporation for Petroleum Products, 966 mil toneladas foram consumidas. Em abril, o consumo de gasolina era apenas um décimo disso, 97.382 toneladas. Mesmo com os dados de maio, com o consumo a recuperar um pouco apenas atingiu as 195 mil toneladas. Seria necessário voltar a abril de 1969 para encontrar uma quantidade semelhante de gasolina em todo o mundo.

Querosene
O querosene é o combustível por excelência da aviação, tão afetada pela pandemia. De todos os combustíveis, a queda mais acentuada foi no querosene. O seu recorde negativo anterior era de 103.554 toneladas em maio de 1969. Em abril, registou 39.498 toneladas, menos da metade do que foi consumido 51 anos atrás, sobretudo em um contexto em que o querosene bateu recordes no verão, ano depois do ano . Em julho de 2019, atingiu um limite de 698.470 toneladas.

Óleo combustível
Embora todos os combustíveis sigam uma dinâmica semelhante de aumento, caindo por volta de 2012 devido à recessão e uma recuperação tímida desde então para atingir o máximo, o combustível é o único que sai dessa tendência. O uso desse combustível tem diminuído desde o pico em janeiro de 1981, quando mais de dois milhões de toneladas eram expedidas mensalmente. O consumo global de óleo combustível em maio de 2020 foi de 439.796 toneladas, número nunca visto em mais de meio século. Para se aproximar de um consumo tão baixo, é preciso voltar a agosto de 1985, quando ultrapassou por pouco meio milhão de toneladas.

Diesel e GPL
Embora os carros a diesel pareçam carregar um estigma desde o escândalo da Volkswagen, ao que acrescem as taxas que muitos países colocaram em combustível, o diesel está em ascensão meteórica há anos, impulsionado especificamente pelo aquecimento doméstico, água quente ou uso industrial. O produto atingiu o pico em 2007 com mais de 3,3 milhões de toneladas por mês e, nos últimos anos pós-crise, voltou ao pódio. Em janeiro deste ano, ultrapassou 2,8 milhões, mas o coronavírus e o confinamento interromperam essa progressão. Para ver um consumo de diesel como o de em abril (1,6 milhão de toneladas) é preciso recuar 23 anos, até 1997.

Um dos combustíveis que as empresas de petróleo reposicionaram como uma alternativa mais ecológica ao diesel é o gás liquefeito de petróleo, ou GLP, que também é o principal componente do butano ou propano. Devido ao seu uso no aquecimento, o seu consumo geralmente atinge normalmente um pico em dezembro-janeiro, sendo 1992 o recorde histórico do último meio século, com 345 mil toneladas. Mas o coronavírus atingiu fortemente o GLP. Entre março e maio de 2020, passou de despachar 246.189 para 102.391 toneladas, mas não bateu no fundo, a esse ponto só chegou em setembro de 1992, com um consumo de 76.165 toneladas.

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