De grafitis de 7 dólares a bombas: guerra híbrida da Rússia na Europa está numa escala “sem precedentes”

A Rússia tem procurado uma operação de sabotagem em todos os Estados-membros da NATO há mais de seis meses, visando as linhas de abastecimento de armas para a Ucrânia ou até mesmo os decisores deste abastecimento, relata esta quinta-feira a ‘CNN, citando um alto funcionário da NATO. Não é segredo: vários responsáveis pela segurança em toda a Europa salientam uma ameaça que se propaga conforme agentes russos contratam amadores locais para cometerem crimes de alto risco.

De acordo com um responsável da NATO, tem sido observada “uma escalada e um alastramento sem precedentes da guerra híbrida russa” nos últimos seis meses, que inclui “sabotagem física” da linha de abastecimento de armas da NATO destinadas à Ucrânia. “Abarca tudo, desde o ponto de produção e origem, ao armazenamento, àqueles que tomam as decisões, até à entrega efetiva”, explica. “É ousado. A Rússia está a tentar intimidar os nossos aliados.”

O Kremlin já rejeitou as acusações: no entanto, a sabotagem e a guerra híbrida de Moscovo estão na agenda na cimeira da NATO, em Washington. São cada vez mais as detenções relacionadas com os serviços secretos do Kremlin: em 2023, 14 ucranianos e dois bielorrussos foram detidos na Polónia pela suspeita de trabalharem para os serviços secretos russos. Um ucraniano de 24 anos foi condenado a seis anos de prisão após semanas a receber tarefas de um supervisor russo, Andrzej, que nunca conheceu pessoalmente, que o contactou via ‘Telegram’.

Inicialmente, Andrzej pagou-lhe 7 dólares em moedas digitais para que ele espalhasse graffitis contra a guerra na Polónia. Mas as tarefas tornaram-se mais pesadas. Em entrevista à ‘CNN’, Maxim salienta que fugiu da Ucrânia para a Polónia para escapar ao desemprego e à pobreza. “Era dinheiro fácil”, relata. “E eu precisava desesperadamente de dinheiro.”

Andrzej enviou a Maxim localizações para colocar câmaras de vigilância ao longo dos caminhos-de-ferro perto da cidade fronteiriça de Medyka, através da qual a ajuda militar e humanitária fluiria para a Ucrânia. “Não pensei que nada daquilo pudesse causar qualquer dano real. Parecia-me tão insignificante”, afirma.

Depois, Andrzej pediu-lhe que incendiasse a vedação de uma empresa de transportes de propriedade ucraniana na cidade polaca de Biala Podlaska, no leste do país. Maxim apercebeu-se que Andrzej era um agente russo quando lhe foi dito para colocar câmaras no exterior de uma base onde a Polónia treinava soldados ucranianos. “Foi aí que percebi que a coisa podia ser séria”, aponta. “Isso fez-me sentir desconfortável. Foi nessa altura que decidi demitir-me. Mas nunca tive hipótese. Fui preso no dia seguinte.”

Essa operação das autoridades polacas foi a maior operação de espionagem russa conhecida na Polónia nos últimos tempos, suscitando preocupações em Varsóvia quanto à extensão da infiltração de Moscovo – um outro polaco foi detido em abril último por posse de munições e por vigiar o aeroporto de Rzeszow Jasionka, um centro de transporte de armas da NATO para Kiev, num presumível plano para assassinar o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que também utiliza frequentemente as instalações.

No mês passado, um incêndio suspeito atingiu uma fábrica de metais de uma empresa de produtos de defesa nos arredores de Berlim e um ucraniano pró-russo de 26 anos foi detido depois de se ter feito explodir com uma bomba caseira perto do aeroporto Charles de Gaulle, em Paris. Um incêndio num armazém na zona leste de Londres, em março, levou a que dois homens fossem acusados pelo Serviço de Polícia Metropolitana de Londres de fogo posto e de assistência a um serviço de informações estrangeiro, nomeadamente a Rússia.

A sabotagem russa contra os países membros da NATO é um “jogo muito perigoso se a Rússia acredita que estas coisas estão sempre abaixo do limiar do conflito armado”, delineado pelo artigo 5. “Descobrir onde está essa linha é um cálculo difícil e perigoso de fazer”, aponta o alto funcionário da NATO, que indica que Moscovo está a usar “toda a gama” de operações híbridas”: “Vemos de tudo, desde operações de alto nível na Europa, onde vimos até 400 mil euros pagos por algum tipo de atividade das secretas, até alguns lugares onde criminosos estão a ser contratados por alguns milhares de euros.”

Na Estónia, o carro do ministro do Interior foi vandalizado, numa operação que conduziu à detenção de 10 alegados agentes russos: este foi o ponto alto de uma campanha de Moscovo que dura há vários anos para desestabilizar o seu pequeno vizinho da NATO. Nos últimos meses, foram detetadas interferências nos sinais GPS na aviação civil e até as boias que demarcam parte da fronteira da Rússia com a Estónia desapareceram.

“Assistimos a um aumento significativo da sua atividade no último outono e, no inverno, conseguimos deter mais de 10 suspeitos. O número de pessoas envolvidas nas atividades híbridas da Rússia contra a segurança da Estónia aumentou de uma forma que nunca tínhamos visto antes”, relata Harrys Puusepp, porta-voz do KAPO, o serviço de segurança interna da Estónia, salientando que as operações estão a evoluir “para ataques físicos”.

“Temos de encarar os factos. A Rússia é suficientemente grande para ter recursos para travar uma guerra contra a Ucrânia e também para manter as suas operações de segurança contra os países europeus. Há pessoas que participam na guerra contra a Ucrânia e depois são transferidas para outra região ou área. Têm mais experiência. A sua mentalidade é mais violenta. Talvez já não sejam tão pacientes a tentar obter resultados”, conclui.

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