Nigel Farage vai colocar esta quinta-feira o seu lugar no Parlamento britânico à prova dos eleitores. O líder do Reform UK desencadeou eleições legislativas parciais no círculo de Clacton-on-Sea depois de se demitir na sequência da polémica em torno de doações que não terão sido declaradas.
O político britânico, uma das principais figuras da campanha que levou ao Brexit, parte como grande favorito para recuperar o mandato. A eleição terá, porém, contornos pouco habituais: os principais partidos decidiram não apresentar candidatos e Farage terá pela frente um número recorde de 33 adversários, vários deles satíricos.
Entre estes está Count Binface, ou “Conde Cara-de-Caixote-do-Lixo”, personagem do humorista Jon Harvey que se apresenta aos eleitores com um caixote do lixo na cabeça e um fato metálico.
Farage demitiu-se e devolveu decisão aos eleitores
A eleição antecipada foi provocada pelo próprio Farage, que anunciou em julho a demissão do Parlamento e justificou a decisão com a intenção de deixar os eleitores julgarem a polémica.
“Os eleitores devem ser os juízes das minhas ações”, afirmou na altura, antes de anunciar que voltaria a concorrer pelo mesmo círculo eleitoral.
Farage tinha conseguido entrar no Parlamento em julho de 2024, depois de sete tentativas falhadas.
A sua posição ficou entretanto sob pressão devido a questões relacionadas com dinheiro recebido de apoiantes e que não terá sido devidamente declarado.
O órgão responsável pela fiscalização da ética parlamentar estava a investigar uma doação de cinco milhões de libras, cerca de 5,7 milhões de euros, feita por Christopher Harborne, multimilionário que fez fortuna no setor das criptomoedas.
Farage sustenta que parte desse dinheiro foi utilizada para financiar a sua segurança.
Segundo o ‘The Times’, o líder do Reform UK terá ainda recebido uma doação não declarada de George Cottrell, empresário ligado às criptomoedas e condenado por fraude nos EUA em 2017.
A investigação parlamentar foi suspensa quando Farage deixou de ser deputado.
Grandes partidos recusaram entrar na disputa
Trabalhistas, Conservadores e Liberais Democratas optaram por não apresentar candidatos depois da demissão de Farage, acusando o líder do Reform UK de estar a promover uma manobra de diversão.
Isso abriu espaço a uma eleição invulgar em Clacton-on-Sea, no Essex, onde estão inscritos 78.245 eleitores.
Farage terá 33 adversários, o maior número de candidatos alguma vez registado numa eleição parlamentar britânica, segundo a Lusa.
A dimensão da lista obrigará mesmo à utilização de um boletim de voto com quase um metro de comprimento.
Clacton constitui também um terreno eleitoral particularmente favorável a Farage. A estância balnear votou expressivamente a favor da saída do Reino Unido da União Europeia no referendo de 2016.
Um homem com um caixote do lixo na cabeça entre os adversários
Com os grandes partidos fora da corrida, uma parte significativa dos candidatos é composta por independentes e figuras satíricas.
A mais conhecida é Count Binface, personagem interpretada desde 2018 pelo humorista Jon Harvey, que se descreve como um “guerreiro espacial intergaláctico”.
Entre as suas propostas está “tapar todos os buracos das ruas com o programa Trabalhista de 2024”.
Também o Official Monster Raving Loony Party, partido satírico criado em 1982 e presença habitual em eleições britânicas, apresenta três candidatos.
Apesar da dimensão e excentricidade da concorrência, as sondagens apontam para uma vitória confortável de Farage.
Vitória pode reabrir investigação
Mais do que saber se Farage consegue regressar ao Parlamento, uma das atenções estará na margem da eventual vitória e na participação eleitoral.
Uma votação substancialmente inferior à conseguida em 2024 poderia ser interpretada como um sinal de desgaste provocado pelas polémicas.
“Se vencer por uma margem estreita, ou com um número significativamente menor de votos do que em 2024, isso indicará que a sua popularidade está em queda e que a sua credibilidade foi manchada pelas revelações sobre as doações não-declaradas que recebeu”, afirmou Peter Dorey, professor da Universidade de Cardiff especializado em política britânica.
Há ainda outra consequência importante. Se Farage recuperar o mandato, a investigação parlamentar às doações poderá ser retomada.
Caso sejam determinadas irregularidades suficientemente graves para justificar uma suspensão superior a 15 dias, poderá ser iniciado um processo capaz de conduzir a uma nova eleição parcial. Nesse cenário, os partidos tradicionais já indicaram que voltariam à disputa.
A votação desta quinta-feira surge ainda numa altura de maior pressão sobre o Reform UK. Depois de ter liderado durante meses as sondagens e de ter obtido resultados expressivos nas eleições locais de maio, a progressão do partido mostra sinais de abrandamento.


















