Atualmente, o cancro continua a ser a segunda causa de morte no mundo, apesar dos avanços médicos na deteção e tratamento. A gravidade da doença apresenta-se na sua grande diversidade – embora alguns sejam efetivamente tratáveis através de cirurgias, quimioterapia e radioterapia, outros há que não respondem a esses tratamentos. Melhorar a gestão desta doença é um grande desafio para os sistemas de saúde.
O desenvolvimento de imunoterapias – tratamentos que aproveitam vários componentes do sistema imunológico para combater tumores – tem sido um caminho que se revela promissor. Muitos utilizam vírus modificados, que causam efeitos adversos em muitos pacientes. Uma equipa de especialistas francesa estudou a possibilidade de utilizar um micro-organismo não patogénico para humanos – neospora caninum – cujos primeiros resultados em laboratório têm sido bastante animadores, revelou esta terça-feira a publicação ‘The Conversation’.
Ao contrário da quimioterapia e da radioterapia, que impedem a multiplicação das células tumorais mas induzem efeitos colaterais graves (pois esses tratamentos também atacam as células não cancerosas do organismo), a imunoterapia estimula o sistema imunológico do paciente a lutar mais especificamente contra o cancro.
Essa abordagem explora diferentes estratégias, seja o uso de anticorpos que impedem as células cancerígenas de inativar o sistema imunológico ou visando especificamente as células cancerígenas, ou ainda o uso de microrganismos organismos vivos que induzem uma forte resposta imune para destruir o tumor.
Essas abordagens imunoterapêuticas têm sido usadas desde 2001 para tratar o melanoma: o desenvolvimento do primeiro anticorpo para inibir os checkpoints imunológicos permitiu que mais de 53,6% dos pacientes sobrevivessem 2 anos. Este anticorpo reconhece uma proteína que desempenha um papel na inativação de linfócitos T, células imunitárias que têm uma atividade antitumoral.
Em 2015, outro avanço no campo do tratamento do melanoma reduziu os tumores e aumentou a taxa de sobrevivência de alguns pacientes: esta estratégia baseia-se na utilização de um vírus do herpes, modificado para se multiplicar nas células tumorais e causar a sua morte. Este vírus também foi modificado para produzir uma proteína humana que estimula a resposta imune antitumoral.
As imunoterapias podem ser a chave para o tratamento de cancros altamente incuráveis porque são refratárias às terapias antitumorais existentes. Como o caso do glioblastoma, um cancro cerebral grave que representa uma sobrevivência média de 15 meses após o diagnóstico, ou o cancro do pâncreas, que tem associado uma sobrevivência de apenas 8 meses.
No entanto, o uso de vírus como parte de imunoterapias pode não ser linear: existe um risco particular de que o seu material genético se integre no das células humanas, causando mutações indesejadas. Para contornar este problema, a equipa de cientistas da Universidade de Tours desenvolveu uma imunoterapia baseada num microrganismo denominado neospora caninum.
Identificado em 1984 em cães, o neospora caninum é um parasita unicelular. Também é intracelular obrigatório, o que significa que infeta outras células nas quais se reproduz. Responsável por graves distúrbios neurológicos e abortos em certos animais, é totalmente inofensivo para humanos, provavelmente devido a diferenças nas respostas imunes.
Como os vírus usados na imunoterapia, o neospora caninum pode destruir as células que infeta – induz uma forte resposta imune celular, necessária no combate ao cancro, o que o torna um candidato relevante para a imunoterapia antitumoral.
Em laboratório, os cientistas testaram a sua eficácia como parte de uma imunoterapia destinada a tratar ratos de laboratório com cancros do timo, chamado timoma. Benigno e de crescimento lento, esse tipo de cancro é geralmente assintomático e tratado principalmente por cirurgia.
O estudo, publicado na revista científica ‘Journal for ImmunoTherapy of Cancer’, demonstrou que o micro-organismo foi capaz de controlar o desenvolvimento de um tumor até à regressão completa – de três formas diferentes.
Primeiro, foi capaz de destruir diretamente as células cancerosas: quatro dias após o tratamento, os vacúolos apresentavam os micro-organismos nas células tumorais. Ou seja, multiplicam-se nas células hospedeiras conforme estão protegidos de qualquer degradação. Após esta fase de multiplicação, a célula parasitada é destruída. Foi também detetada em outras células mas não persistiu ou causou danos.
Depois, o neospora caninum controlou o desenvolvimento do tumor através da estimulação imune celular. Foi detetado, nos ratos de laboratório, uma forte resposta do sistema imunológico, sobretudo no ‘recrutamento’ de células imunes especializadas na destruição de células cancerígenas.
Por último, o micro-organismo afetou o desenvolvimento do tumor através de reprogramação do microambiente tumoral. Assim, os tumores permanecem no organismo porque são capazes de “adormecer” o sistema imunológico, formando o chamado microambiente imunossupressor, o que promove o seu desenvolvimento. A intervenção do micro-organismo permitiu que duas moléculas, responsáveis pelo crescimento, sejam produzidas a níveis mais baixos dentro do tumor, o que reconfigura o microambiente tumoral para o tornar mais favorável para a eliminação das células cancerígenas.
Os resultados da equipa de investigação francesa são muito animadores, embora preliminares. Mas são demonstrativos que o neospora caninum pode ser um bom candidato para enriquecer o arsenal de imunoterapias anticancros. O próximo passo dos cientistas é estudar as propriedades anticancerígenas num modelo de cancro de difícil tratamento.



