Dormir demasiado pouco pode acelerar o envelhecimento do organismo, mas dormir em excesso também poderá ter efeitos negativos na saúde. A conclusão é de um novo estudo científico que identificou uma faixa considerada ideal para preservar o funcionamento dos órgãos e promover um envelhecimento mais saudável.
A investigação, publicada em maio na revista científica Nature, concluiu que o chamado “ponto ideal” de sono situa-se entre 6,4 e 7,8 horas por noite. Segundo os investigadores, dormir menos de seis horas ou mais de oito horas está associado a sinais de envelhecimento biológico acelerado em diversos órgãos do corpo humano.
Os resultados sugerem que tanto a privação como o excesso de sono podem afetar negativamente estruturas fundamentais como o cérebro, os pulmões, o coração e o sistema imunitário, além de estarem associados a várias doenças físicas e perturbações de saúde mental.
Sono insuficiente e sono excessivo associados ao envelhecimento acelerado
Para chegar a estas conclusões, a equipa liderada por Junhao Wen, professor assistente de Radiologia na Faculdade de Medicina Vagelos da Universidade de Columbia, analisou os chamados “relógios biológicos” de diferentes órgãos do corpo humano.
Ao contrário de muitos estudos anteriores, que avaliam o envelhecimento do organismo como um todo, esta investigação procurou medir a velocidade de envelhecimento de órgãos específicos, recorrendo a modelos estatísticos avançados conhecidos como “relógios de envelhecimento”.
Segundo Junhao Wen, o estudo reforça a ideia de que o sono desempenha um papel central na manutenção da saúde dos órgãos e no equilíbrio entre cérebro e corpo.
“O sono é importante para manter a saúde dos órgãos dentro de uma rede coordenada entre cérebro e corpo, incluindo o equilíbrio metabólico e um sistema imunitário saudável”, explicou o investigador.
A análise revelou que dormir menos de seis horas por noite está associado a um envelhecimento biológico mais rápido de vários órgãos. No entanto, os cientistas verificaram igualmente que dormir mais de oito horas produz um efeito semelhante, acelerando indicadores de envelhecimento em praticamente todo o organismo.
Riscos para a saúde física e mental
Além da relação com o envelhecimento biológico, o estudo encontrou associações significativas entre padrões inadequados de sono e diversas doenças.
Entre os problemas de saúde mais frequentemente relacionados com períodos de sono demasiado curtos ou excessivamente longos encontram-se a obesidade, a diabetes tipo 2, a hipertensão arterial, a doença coronária e a gastrite.
Os investigadores identificaram também uma ligação relevante entre estas durações extremas de sono e problemas de saúde mental, nomeadamente depressão e perturbações de ansiedade.
Contudo, os autores sublinham que os resultados não significam necessariamente que o número de horas de sono seja a causa direta do envelhecimento acelerado. O excesso ou a falta de sono poderão igualmente funcionar como indicadores de problemas de saúde subjacentes.
Porque pode dormir demasiado ser prejudicial?
Os riscos associados à falta de sono estão amplamente documentados pela ciência há décadas. A privação crónica de sono tem sido associada ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, acidentes vasculares cerebrais e redução da esperança de vida.
Mais surpreendente para muitas pessoas é a associação entre o excesso de sono e problemas de saúde.
A neurocientista e investigadora Chelsie Rohrscheib explicou que períodos prolongados de sono estão frequentemente ligados a doenças que já afetam o organismo.
“O sono excessivo está associado a muitos problemas de saúde porque frequentemente é consequência de doenças subjacentes, como apneia do sono, doenças inflamatórias, cancro, doenças neurodegenerativas ou problemas de saúde mental”, afirmou.
A especialista acrescenta que algumas investigações encontraram níveis elevados de inflamação em pessoas que dormem durante períodos muito prolongados, um fator relacionado com doenças cardiovasculares e vários tipos de cancro.
Outro possível fator prende-se com a redução da atividade física. Quanto mais tempo uma pessoa permanece a dormir, menos tempo tende a dedicar ao exercício e ao movimento diário, aumentando o sedentarismo.
Mulheres podem necessitar de mais sono
O estudo identificou ainda diferenças entre homens e mulheres no que respeita às necessidades de descanso.
Segundo os investigadores, as mulheres poderão necessitar, em média, de mais 10 a 20 minutos de sono por noite do que os homens.
Embora as razões não estejam totalmente esclarecidas, os especialistas acreditam que fatores hormonais poderão desempenhar um papel importante. As alterações associadas ao ciclo menstrual, à gravidez e à menopausa são apontadas como possíveis explicações.
Alguns investigadores defendem ainda que as mulheres podem estar sujeitas a maiores exigências emocionais e cognitivas, o que poderia aumentar a necessidade de sono para processos como a consolidação da memória, a regulação emocional e a recuperação cerebral.
O mito das oito horas de sono
Uma das conclusões que mais atenção tem gerado entre especialistas é o facto de a faixa considerada ideal ficar ligeiramente abaixo das tradicionais oito horas de sono frequentemente apresentadas como objetivo universal.
O neurologista Chris Winter considera que este é um dos aspetos mais relevantes da investigação.
“A faixa ideal corresponde essencialmente a uma média de sete horas de sono e não de oito”, explicou.
O especialista defende que a ideia de que todas as pessoas precisam obrigatoriamente de oito horas de sono deve ser encarada com cautela.
“As necessidades de sono variam significativamente em função da idade, do estilo de vida e da genética”, salientou.
Segundo Winter, quem tem dificuldades em atingir consistentemente oito horas de sono não deve assumir automaticamente que está a comprometer a sua saúde.
“Pode simplesmente acontecer que o seu organismo funcione melhor com um número de horas inferior àquele que está a tentar atingir, mas ainda dentro da faixa considerada ideal”, concluiu.
Os autores do estudo reconhecem algumas limitações na investigação. Os dados utilizados provêm sobretudo do UK Biobank, uma base de dados composta maioritariamente por participantes de origem europeia, pelo que defendem a realização de novos estudos que incluam mais pessoas de ascendência africana e asiática para confirmar os resultados noutras populações.



