Nem droga nem armas: inteligência artificial aprende a identificar um dos maiores negócios ilegais do mundo

Uma equipa internacional de investigadores desenvolveu um sistema baseado em inteligência artificial capaz de identificar espécies marinhas traficadas ilegalmente em aeroportos com uma taxa de precisão global de 92%.

Pedro Zagacho Gonçalves

Uma equipa internacional de investigadores desenvolveu um sistema baseado em inteligência artificial capaz de identificar espécies marinhas traficadas ilegalmente em aeroportos com uma taxa de precisão global de 92%, um avanço tecnológico que poderá reforçar significativamente o combate a uma das atividades criminosas mais lucrativas do mundo.

A tecnologia foi apresentada por ocasião do Dia Mundial dos Oceanos e descrita na revista científica Frontiers in Ocean Sustainability. O sistema utiliza scanners de tomografia computorizada (CT), já presentes em muitos aeroportos, para gerar imagens tridimensionais do conteúdo das bagagens e detetar automaticamente produtos provenientes do tráfico ilegal de vida marinha.

Um negócio multimilionário que ameaça os oceanos
Quando se fala em tráfico de fauna, a atenção recai frequentemente sobre o marfim, os cornos de rinoceronte ou espécies exóticas de grande porte. No entanto, os investigadores alertam para a existência de um mercado ilícito muito menos visível, mas igualmente lucrativo e destrutivo para os ecossistemas marinhos.

Entre os produtos mais procurados pelos traficantes encontram-se barbatanas de tubarão, cavalos-marinhos secos e pepinos-do-mar. Por serem relativamente pequenos e fáceis de ocultar em malas ou encomendas, estes produtos atravessam fronteiras com maior facilidade do que muitas outras mercadorias ilegais.

Trata-se de uma atividade criminosa global que contribui para o declínio de espécies vulneráveis e para a degradação de ecossistemas oceânicos já sob forte pressão.

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Segundo estimativas de organismos internacionais citadas pelos investigadores, o tráfico ilegal de vida selvagem movimenta entre sete mil milhões e 23 mil milhões de dólares por ano em todo o mundo, sendo considerado uma das atividades criminosas mais rentáveis do planeta, apenas superada pelo narcotráfico, pela contrafação e pelo tráfico de seres humanos.

Algoritmo foi treinado para reconhecer espécies traficadas
Para desenvolver o sistema, os investigadores treinaram uma rede neuronal utilizando centenas de imagens tridimensionais obtidas através de scanners de barbatanas de tubarão, cavalos-marinhos e pepinos-do-mar, três dos produtos marinhos mais frequentemente associados ao comércio ilegal.

As barbatanas de tubarão destinam-se sobretudo ao mercado gastronómico asiático. Os cavalos-marinhos secos são amplamente procurados em determinadas práticas de medicina tradicional, enquanto os pepinos-do-mar atingem valores muito elevados em alguns mercados de luxo.

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Com o objetivo de aproximar os testes das condições reais encontradas pelas autoridades aeroportuárias, os cientistas reproduziram várias técnicas utilizadas pelos traficantes para esconder os produtos.

As amostras foram ocultadas entre peças de roupa, colocadas dentro de recipientes metálicos, escondidas em brinquedos infantis e até integradas digitalmente em imagens reais de bagagens analisadas nos aeroportos.

Resultados superaram expectativas
Os resultados obtidos surpreenderam os próprios investigadores.

O sistema de inteligência artificial conseguiu identificar corretamente 96% dos cavalos-marinhos analisados, 95% das barbatanas de tubarão e 86% dos pepinos-do-mar.

No conjunto dos testes realizados, a eficácia global atingiu os 92%, demonstrando a capacidade da tecnologia para reconhecer produtos traficados mesmo quando estes se encontram dissimulados entre outros objetos.

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Milhares de espécies protegidas podem beneficiar da tecnologia
Os autores do estudo sublinham que o potencial desta ferramenta vai muito além das três espécies utilizadas durante a fase experimental.

Atualmente, mais de 37 mil espécies estão protegidas pela CITES, acordo internacional que regula o comércio de fauna e flora ameaçadas.

Entre estas encontram-se numerosas espécies marinhas cuja procura continua a aumentar nos mercados internacionais.

Os investigadores recordam que o comércio de cavalos-marinhos envolve milhões de exemplares todos os anos. Já no caso dos tubarões, estima-se que entre 70 e 100 milhões sejam capturados anualmente, sendo muitos deles destinados ao mercado de barbatanas.

Ferramenta poderá apoiar autoridades aduaneiras
Os autores acreditam que a nova tecnologia poderá tornar-se uma importante aliada dos agentes aduaneiros, que diariamente têm de analisar milhares de malas e volumes nos aeroportos internacionais.

Em vez de substituir os procedimentos atuais, o sistema funcionaria como um mecanismo automático de alerta, sinalizando bagagens suspeitas para uma inspeção mais detalhada por parte das autoridades.

Ainda assim, os investigadores salientam que a inteligência artificial não deverá substituir os inspetores humanos nem os cães treinados para deteção de substâncias e produtos ilegais.

Além disso, muitos aeroportos continuam a utilizar equipamentos de raio-X bidimensionais mais antigos e ainda não dispõem dos modernos scanners de tomografia computorizada necessários para o funcionamento deste algoritmo.

Nova frente tecnológica contra um crime invisível
Apesar das limitações atuais, os responsáveis pelo estudo consideram que a tecnologia representa uma nova etapa no combate ao tráfico ilegal de espécies marinhas.

A capacidade de identificar automaticamente produtos provenientes da exploração ilegal dos oceanos poderá contribuir para reduzir um comércio clandestino que ameaça algumas das espécies mais vulneráveis do planeta.

Por trás de uma pequena embalagem de cavalos-marinhos secos ou de algumas barbatanas de tubarão aparentemente inofensivas pode esconder-se uma cadeia internacional de sobre-exploração que continua a esvaziar silenciosamente os oceanos. Com esta nova ferramenta, a inteligência artificial poderá passar a desempenhar um papel decisivo na deteção dessas atividades antes mesmo de as bagagens chegarem ao seu destino final.

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