Os habituais preparativos de segurança para uma cimeira do G7 centram-se, regra geral, na proteção de chefes de Estado e de Governo, com perímetros rigorosamente controlados para prevenir eventuais protestos e manifestações. No entanto, na edição de 2025, que decorre em Kananaskis, nas Montanhas Rochosas canadianas, há uma ameaça pouco convencional a merecer atenção: os ursos e outros grandes mamíferos da região.
À medida que os líderes das sete maiores economias do mundo se reúnem no vale de Kananaskis, as autoridades canadianas viram-se obrigadas a planear não só a segurança contra ameaças humanas, mas também contra os perigos representados pela fauna local. A área de Kananaskis Country, um dos principais acessos às encostas acidentadas e às cadeias frontais das Montanhas Rochosas, foi interditada a todo o tráfego rodoviário e aéreo durante o evento. Entre as principais preocupações estão alces, lobos, pumas, ursos negros e, particularmente, cerca de 70 ursos-pardos que habitam a região.
O Ministério da Segurança Pública e Serviços de Emergência da província de Alberta explicou ao Globe and Mail que foi implementada uma “estratégia abrangente de mitigação da vida selvagem”, com o objetivo de proteger os líderes políticos e evitar encontros indesejados com os animais. Foram colocadas várias milhas de vedação, com uma altura mínima de 2,4 metros, para limitar o acesso da fauna ao perímetro da cimeira. Além disso, nas zonas onde há registo frequente da presença de animais, instalaram-se vedações elétricas para reforçar a segurança.
Encontros recentes aumentaram os alertas
Embora seja comum os ursos – tanto negros como pardos – evitarem o contacto com humanos, há registo de episódios que aumentaram o nível de alerta das autoridades nas últimas semanas. Um deles ocorreu quando uma ursa-parda com duas crias investiu contra pessoas, levando ao encerramento de partes de Kananaskis Country. No dia 13 de junho, visitantes do monte Ole Buck foram avisados para manterem vigilância redobrada após a observação de um puma. No dia seguinte, um troço do trilho Peter Lougheed foi encerrado devido à presença de um urso-pardo a alimentar-se de uma carcaça.
Um fator adicional de preocupação prende-se com o campo de golfe da região, que ocupa 600 acres no vale de Kananaskis. Este espaço, que combina beleza natural com áreas abertas, atrai tanto os ursos como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, conhecido pelo gosto pela modalidade. Na primavera, quando as fontes de alimento nas zonas mais altas permanecem inacessíveis, os campos de golfe e outros espaços semi-urbanos tornam-se particularmente apelativos para os ursos.
Darren Robinson, gerente do campo de golfe há vários anos, explicou ao CBC News que estes espaços oferecem um habitat atrativo para diferentes espécies. “Por vezes as pessoas esquecem-se do ambiente incrível que estes campos representam para a vida selvagem”, afirmou. “Houve dias no verão passado em que, do interior do clube, cheguei a ver cinco ursos diferentes — alguns negros, outros pardos, alguns jovens, outros com crias. É algo de belo.”
O trágico falecimento de Nakoda, uma conhecida ursa-parda branca da região, no ano passado, é exemplo da vulnerabilidade destes animais face ao ser humano. Depois de ter sido atropelada por um carro, Nakoda conseguiu escalar uma das vedações de proteção antes de sucumbir aos ferimentos. Saundi Stevens, especialista em gestão de fauna de Parks Canada na unidade que abrange Lake Louise, Yoho e Kootenay, descreveu a morte como “devastadora” para os guardas e técnicos que acompanharam a ursa ao longo dos anos. “Há apenas algumas semanas, todos no nosso gabinete estavam a celebrar a sua saída da toca com duas novas crias”, contou Stevens aos jornalistas.
Apesar das atenções mediáticas estarem focadas na segurança dos líderes mundiais presentes na cimeira, o episódio de Nakoda serve como lembrete de que, na maior parte dos casos, é a presença humana que representa a maior ameaça para os habitantes da região.













