Nem a Rússia nem a China querem que a guerra na Ucrânia acabe…mas por razões diferentes

A China é atualmente o mercado mais importante da Rússia, mas Putin não está apenas a cortejar Xi Jinping à procura de apoio económico: o líder russo está também a estabelecer uma relação estratégica

Francisco Laranjeira

Vladimir Putin cumpriu uma visita à China e fez-se acompanhar por uma grande delegação comercial. Esta foi a primeira viagem do presidente russo ao exterior depois da sua reeleição para um quinto mandato, e dias depois de ter nomeado um economista civil para conduzir o Ministério da Defesa da Rússia, num claro sinal de que a economia do seu país em tempos de guerra é para manter.

A China é atualmente o mercado mais importante da Rússia, mas Putin não está apenas a cortejar Xi Jinping à procura de apoio económico: o líder russo está também a estabelecer uma relação estratégica.

“Os dois Estados são aliados não porque partilhem qualquer afinidade cultural ou ideológica específica; pelo contrário, uniram-se devido ao velho ditado de que ‘o inimigo do meu inimigo é meu amigo'”, salienta Chels Michta, do Centro de Análise de Política Europeia, citado pela publicação ‘Business Insider’. “A parceria deles é em grande parte prática – ancorada em princípios de poder duro, desprovidos de pretensão ou postura ideológica”, acrescenta.

“Neste alinhamento da ‘realpolitik’, ambos os partidos acreditam que têm mais a ganhar se continuarem a trabalhar juntos do que correm o risco de perder”, assume.

Putin precisa de equilibrar o domínio da China sobre a economia da Rússia

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A economia da Rússia manteve-se resiliente perante mais de dois anos de sanções ocidentais em grande parte devido aos incentivos provenientes dos subsídios estatais e da produção durante a guerra. Houve um economista que chegou ao ponto de dizer que a economia estava tão impulsionada pela guerra que não se podia dar ao luxo de ganhar ou perder no conflito na Ucrânia.

No entanto, a Rússia também se tornou cada vez mais dependente da China desde que iniciou a guerra na Ucrânia. O comércio bilateral atingiu um nível recorde de 240 mil milhões de dólares no ano passado – um salto de 26% em relação aos 190 mil milhões de dólares do ano anterior. “É justo dizer que sem o apoio económico da China, a Rússia não teria sido capaz de enfrentar as sanções económicas que lhe foram impostas pelo Ocidente”, escreve Michta.

Porém, a especialista indica que o ‘boom’ no comércio serviu mais os interesses da China do que os da Rússia, colocando Moscovo numa posição cada vez mais subordinada. Um exemplo: a Rússia agora “exporta matérias-primas para a China, enquanto a China envia produtos acabados, especialmente automóveis, para a Rússia – estes últimos à custa da indústria automobilística local da Rússia”.

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Um dos pontos chave da agenda de Putin na China foi conseguir que Xi Jinping apoiasse uma proposta de gasoduto de gás natural da Sibéria para a China, uma vez que a Rússia perdeu o seu mercado na Europa devido às sanções.

“Ao vender grandes volumes de gás barato à China, a Rússia pode potencialmente vincular Pequim a uma aliança geopolítica mais estreita”, escreveram analistas do Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia.

“Convencer a China a comprometer-se com um projeto tão grande durante a guerra seria um golpe geopolítico para Moscovo, demonstrando ao Ocidente e ao Sul Global que é capaz de aprofundar a sua relação energética com a China apesar da guerra”, acrescentaram os analistas energéticos.

Mas a China não precisa realmente de mais gás antes de meados da década de 2030, por isso o tempo está do lado de Pequim.

A China diz que quer a paz, mas tem mais a ganhar com a continuação da guerra

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Pequim apelou à paz na Ucrânia e apresentou uma proposta – que alguns analistas consideram vaga – para esse fim no ano passado. No entanto, de acordo com diversos analistas, a China tem mais a ganhar com a continuação da guerra. “O apoio contínuo da América a Kiev – e, portanto, a incapacidade da Rússia de assegurar os seus ganhos num curto espaço de tempo – é na verdade do interesse de Pequim”, escreve Michta.

“O fim da ajuda dos EUA funcionaria contra a China, uma vez que a implosão da Ucrânia interromperia – ou pelo menos abrandaria – o deslizamento de Moscovo em direção a uma dependência semelhante a um vassalo de Pequim”, acrescenta, destacando que uma Rússia cada vez mais dependente poderá ser capaz de oferecer a Pequim a tecnologia militar fundamental que desenvolveu na era pós-soviética, ajudando assim a China a fazer grandes progressos no setor.

Apesar das suas tentativas de se unirem, a relação cada vez mais estreita entre a Rússia e a China é um problema para o Ocidente. “Atualmente, uma unidade de propósito entre as potências autocráticas criou a relação mais próxima em décadas. A China e a Rússia estão a forjar uma parceria que lembra cada vez mais uma aliança de grande poder”, escreve Michta.

Em particular, Pequim tem como objetivo ir além da Rússia – que está mais interessada em mudar as relações de poder na Europa. “Pequim está a prosseguir um projeto muito mais ambicioso que visa mudar os fundamentos da ordem global”, conclui Michta, “acabando de uma vez por todas com a era do domínio ocidental mundial”.

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