O principal negociador britânico para a saída da União Europeia (UE), David Frost, está a ser acusado de dar tratamento desigual ao Reino Unido e à União Europeia, como se fossem «dois planetas diferentes», depois de rejeitar a supervisão e regras europeias nas negociações pós-Brexit.
De acordo com o “The Guardian”, o responsável pelas negociações do Parlamento Europeu para o Brexit, Guy Verhofstadt, disse que seria um «trabalho infernal» garantir um entendimento entre os dois lados usando a abordagem britânica. «Não é bom que continuemos a discutir a futura relação como se o Reino Unido e a Europa vivessem em dois planetas diferentes porque o mercado britânico e o europeu estão tão próximos um do outro», defendeu.
Forte crítico do Brexit, Verhofstadt acrescentou que há que olhar para as questões «de uma forma um pouco diferente do que simplesmente dizer que se trata de um puro negócio de comércio livre».
Num discurso em Bruxelas, David Frost reiterou esta segunda-feira que o Reino Unido rejeita qualquer intromissão da UE em regras e regulamentos britânicos e insistiu que não pretendem arrastar as negociações com Bruxelas para lá de 2020. «Pensar que poderíamos aceitar a supervisão da UE [União Europeia] nas chamadas questões de igualdade de condições equitativas é ignorar o que estamos a fazer», sublinhou, acrescentando: «É fundamental para a nossa visão que possamos ter a capacidade de estabelecer leis que nos convêm – reivindicar o direito que todos os outros países fora da UE têm».
Frost voltou a manifestar o desejo de negociar um acordo de comércio livre semelhante ao que foi negociado por Bruxelas com o Canadá, que removeu 98% das tarifas sobre bens e que inclui o respeito de algumas regras, mas não implica um alinhamento conforme a UE introduza mudanças. Acrescentou ainda que o Reino Unido está disposto a negociar nos termos da Organização Mundial do Comércio, o que significa tarifas significativas sobre as mercadorias.
O presidente da Câmara de Londres, o trabalhista Sadiq Khan, também expressou as suas preocupações sobre as decisões do Governo britânico, mas admitiu que um referendo para voltar ao bloco era irrealista no curto a médio prazo. «Aceito que agora deixámos a União Europeia. Suspeito que iremos terminar o período de transição no final de Dezembro», referiu, salientando que o melhor seria que os cidadãos britânicos pudessem continuar a ser considerados a ser cidadãos da UE.
A ideia foi proposta pela primeira vez em 2016 por Verhofstadt. O responsável pela negociação do Brexit em nome do Parlamento Europeu disse que iria propor que os britânicos que o desejarem pudessem continuar a ser tratados como cidadãos europeus. Este estatuto permitiria, inclusive, participar em eleições para o Parlamento Europeu mesmo depois de o Reino Unido concretizar a sua saída do bloco.
Recorde-se que o divórcio inglês aconteceu às 23 horas (meia-noite em Bruxelas) de dia 31 de Janeiro de 2020, cumprindo o desejo dos britânicos que votaram «sim» no referendo de 23 de Junho de 2016. Desde então, iniciou-se um período de transição até 31 de Dezembro de 2020, durante o qual o Reino Unido e a UE vão negociar o quadro das relações futuras. As negociações entre os dois lados devem começar no início do próximo mês.













