Negociações de paz na Ucrânia já não são tema tabu: 44% dos ucranianos sentem que chegou a hora de negociar com Moscovo

Sondagem apontou ainda que 35% dos ucranianos se opunham a qualquer tipo de negociação: dois terços dos entrevistados disseram que ainda acreditam no triunfo militar de Kiev sobre Moscovo

Francisco Laranjeira

Oleksandr Antybysh tem uma ideia clara de como devem decorrer as negociações de paz com a Rússia. “Um regresso às fronteiras internacionalmente reconhecidas da Ucrânia, uma proibição para a Rússia conduzir exercícios militares a não menos de 300 km das fronteiras ucranianas”, revelou o militar, que colidera um grupo de voluntários que fabrica dispositivos para carregamento rápido de armas na cidade de Chernihiv, no norte da Ucrânia: citado pela ‘Al Jazeera’, o militar quer também ver “a reparação total de todas as perdas, materiais e morais, que devem ser calculadas por uma comissão internacional”.

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No entanto, perante o avanço de Moscovo no sudeste da Ucrânia e a incursão ucraniana no oeste da Rússia, as perspetivas de conversações de paz parecem distantes. No entanto, Volodymyr Zelensky tem falado cautelosamente sobre o processo de paz com Moscovo, depois de mais de dois anos a negar a possibilidade – em meados de julho, o presidente ucraniano salientou que a Rússia deveria participar na segunda ronda da cimeira de paz na Suíça, depois de não ter sido convidada para a primeira.

As suas palavras refletem uma tendência crescente entre os ucranianos cansados da guerra, que acordam com o som das sirenes de ataques aéreas ou o barulho ensurdecedor de explosões – uma sondagem divulgada pela publicação ‘Zerkalo Tizhnya’, em meados de julho, mostrou que 44% dos ucranianos estão prontos para negociações de paz — o maior número desde o início da invasão, em fevereiro de 2022. Apenas 23% dos ucranianos queriam tais negociações em maio de 2023, apontou uma sondagem semelhante.

A sondagem apontou ainda que 35% dos ucranianos se opunham a qualquer tipo de negociação: dois terços dos entrevistados disseram que ainda acreditam no triunfo militar de Kiev sobre Moscovo, e 51% disseram que o regresso de todas as áreas ocupadas – incluindo a Península da Crimeia, anexada em 2014 – era uma condição para qualquer acordo de paz.

“Vemos uma tendência. O número daqueles que querem conversas está aumentar”, salientou o analista Volodymyr Fesenko, de Kiev. “Na verdade, muitas pessoas não expressam as suas opiniões, mas isso é mais um apoio silencioso ao fim da guerra.” No entanto, tanto os líderes ucranianos como o público têm um entendimento “definitivo” de que Kiev não pode concordar com concessões territoriais – a necessidade de um compromisso é óbvia, mesmo que a maioria não goste. “É um simples cessar-fogo sem um acordo sobre a questão territorial”, disse Fesenko. “É um mal menor em comparação com a situação atual.”

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O maior obstáculo às negociações de paz e ao cessar-fogo são as exigências “impossíveis” de Moscovo, que incluem a retirada de tropas da Ucrânia de quatro regiões ucranianas que foram parcialmente ocupadas pela Rússia. Vladimir Putin tem repetido que Kiev deveria reconhecer as quatro regiões – junto com a Crimeia – como parte da Rússia e prometer não se juntar à NATO.

O Kremlin também quer que o Ocidente levante as sanções impostas a Moscovo e pressione Kiev a reconhecer o russo como segunda língua oficial para “proteger” os direitos dos falantes de russo no leste e sul da Ucrânia.

No entanto, quaisquer concessões territoriais são impossíveis por causa da sede insaciável de Putin e dos riscos de arruinar a carreira de qualquer político ucraniano que ouse sugeri-las. “Ninguém sabe que concessões fazer porque, em primeiro lugar, elas não satisfarão o ditador russo e, em segundo lugar, quem assumirá a responsabilidade de entregar as terras pelas quais tanto sangue foi derramado?”, descreveu.

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