Há cada vez mais navios a falsificar a sua localização para se envolver em atividades ilícitas – e um número crescente parece estar a fazê-lo para comercializar mercadorias que provavelmente valerão milhares de milhões de euros: de acordo com a ‘CNBC’, tecnologia satélite tem identificado os chamados “navios obscuros” de transporte de petróleo russo sancionado pelo Ocidente, navios-tanque que passam despercebidos nas águas venezuelanas e navios de carga com alegado contrabando de cereais da ucrânia.
Os grandes navios têm de estar equipados com sistemas de identificação automática (AIS) e devem transmitir a sua localização para evitar colisões, de acordo com os requisitos da Organização Marítima Internacional. Mas muitos estão a desligar os seus transponders de localização ou a praticar “spoofing” de AIS – quando uma embarcação diz estar num local mas na realidade está noutro, mesmo a centenas de quilómetros de distância.
Segundo os dados da empresa de tecnologia marítima ‘Windward’, houve um aumento de 12% na manipulação de localização entre petroleiros e navios de carga no primeiro semestre de 2023 face ao mesmo período do ano passado, e uma subida de 82% face ao primeiro semestre de 2021.
O desenvolvimento tecnológico está a facilitar a deteção deste tipo de adulteração e existem novos esforços para tornar públicas as localizações dos navios, garantiu John Lusk, CEO da ‘Spire Maritime’, uma empresa de análise que fornece dados a Governos e empresas privadas. “Estamos a começar a ver ainda mais foco e visibilidade na indústria marítima por causa das sanções”, apontou o especialista, lembrando as últimas medidas da UE, que proibiu os navios que desativaram ou falsificaram o seu AIS de entrar nos seus portos. No entanto, “por causa dos ‘navios obscuros’, grande parte do transporte ilegal está a começar a aumentar”.
O G7 limitou as vendas de petróleo russo a 60 dólares por barril para restringir as receitas do Kremlin mas, de acordo com Ami Daniel, cofundador e CEO da Windward, o movimento ilícito de petróleo russo pode valer dezenas de milhares de milhões de euros: a tecnologia da Windward identificou mais de 1.100 petroleiros associados à Rússia que desligaram ou manipularam o seu AIS. “São milhões de barris de petróleo”, referiu Daniel. Por exemplo, “500 navios poderiam transportar 800 milhões de barris. Se se multiplicar pelo preço do petróleo, os 60 dólares, estamos a falar de 48 mil milhões de dólares”.
A Windward revelou ainda que o número de transferências obscuras de petroleiros entre navios aumentou no Mar de Alboran, a norte de Marrocos, desde o início da invasão russa, o que sugere operações de contrabando – tais transferências permitem que um navio retire petróleo de outro sem se investigar o preço de compra do petróleo e assim mascarar a origem da mercadoria. Já a ‘Spire’ identificou e rastreou 50 grandes transportadores de petróleo que encobriram o seu paradeiro para transportar petróleo da Venezuela. Apesar das sanções americanas, a empresa estimou que 108 milhões de barris de petróleo – no valor de cerca de 8 mil milhões de dólares – foram transferidos do país sul-americano para o Leste Asiático entre 1 de novembro de 2022 e 29 de junho último.













