NATO teme que Rússia mova navios de guerra com mísseis que tem na Síria para o Báltico

Nos últimos meses, a situação agravou-se com novas interferências nas comunicações móveis e nos sistemas de monitorização marítima. Estes distúrbios colocam em risco a segurança da navegação e a estabilidade do fornecimento energético na Europa.

Pedro Gonçalves
Dezembro 19, 2024
18:24

Desde o início da invasão da Ucrânia pela Rússia, o mar Báltico tem sido palco de tensões crescentes e de várias ações de sabotagem. Este corredor estratégico, que liga oito países da NATO à Rússia, viu-se envolto em incidentes preocupantes, como a destruição do gasoduto Nord Stream em setembro de 2022 e o corte de cabos submarinos de telecomunicações em países como Alemanha, Suécia, Finlândia e Lituânia.

Nos últimos meses, a situação agravou-se com novas interferências nas comunicações móveis e nos sistemas de monitorização marítima. Estes distúrbios colocam em risco a segurança da navegação e a estabilidade do fornecimento energético na Europa. Segundo as autoridades polacas e outros países da região, estas ações fazem parte de uma estratégia de guerra híbrida atribuída à Rússia, cujo objetivo seria testar as respostas dos aliados ocidentais. Para além disso, teme-se que a Rússia possa deslocar os navios que tem na Síria, no Mediterrâneo, para o Báltico.

O vice-almirante Krzysztof Jaworski, comandante do Centro de Operações Navais da Polónia, alertou para as graves consequências destas ações. “Estamos a falar de uma conduta agressiva que visa desestabilizar a nossa região e desafiar a coesão da aliança”, afirmou Jaworski em entrevista à agência Reuters.

A Polónia, que recebe a maior parte do seu gás natural liquefeito e abastecimento por gasodutos da Noruega através do Báltico, considera estas ações uma ameaça direta à sua infraestrutura crítica. Jaworski sublinhou a importância de uma resposta coordenada por parte da NATO para mitigar os riscos.

“Navios fantasma” e interferências
Entre as táticas atribuídas à Rússia está o desligamento deliberado dos Sistemas de Identificação Automática (AIS) nos seus navios comerciais, permitindo-lhes operar sem serem detetados, uma violação da lei marítima internacional. Desde os incidentes no Nord Stream, estas manobras foram registadas em dezenas de ocasiões, aumentando os riscos para a navegação segura na região.

Além disso, foram relatadas interferências nos sistemas de posicionamento de embarcações, incluindo a transmissão de leituras falsas. A Guarda Costeira da Finlândia denunciou recentemente que estas interferências provocaram a desorientação de navios comerciais em alto-mar. Jaworski classificou a situação como “um desafio à segurança coletiva” que requer vigilância constante.

As tensões podem agravar-se ainda mais com a possibilidade de a Rússia redirecionar navios de guerra atualmente posicionados no Mediterrâneo, perto da Síria, para o mar Báltico. Estas embarcações, equipadas com mísseis, poderiam reforçar a presença militar russa em águas próximas de São Petersburgo, atravessando a zona de tensão no Báltico.

Jacek Siewiera, chefe da Assembleia de Segurança Nacional da Polónia, admitiu que este movimento é motivo de preocupação para os aliados ocidentais. Segundo o responsável, “A ossa estratégia será monitorizar, observar e demonstrar a nossa capacidade de ação, para que qualquer adversário saiba que estamos preparados”.

Bruno Kahl, chefe do serviço de inteligência exterior da Alemanha, alertou no mês passado para o impacto destas táticas de sabotagem na estabilidade da região. Segundo Kahl, estas ações podem obrigar a NATO a considerar a ativação do Artigo 5 do Tratado da Aliança, que prevê defesa coletiva em caso de ataque a um dos seus membros.

Embora a supervisão constante de todo o mar Báltico seja um desafio logístico, Jaworski destacou a importância das operações conjuntas com aliados da NATO para preservar a segurança.

O mar Báltico tornou-se um ponto crítico onde se cruzam interesses energéticos, políticos e militares. A dependência desta rota por países como a Polónia e outros membros da NATO aumenta a vulnerabilidade da região a ações de guerra híbrida.

“Cada novo navio russo representa uma ameaça potencial”, reconheceu Jaworski, embora confiante na capacidade da NATO de redirecionar recursos de outras zonas estratégicas, como o Atlântico e o Mediterrâneo, para equilibrar as forças.

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