“NATO não vos vai proteger”: ameaça russa à Letónia leva EUA a dar murro na mesa nas Nações Unidas

Letónia é atualmente membro do Conselho de Segurança da ONU e pertence também à NATO, cuja defesa coletiva assenta no Artigo 5º

Francisco Laranjeira

Os Estados Unidos condenaram esta terça-feira as ameaças russas contra a Letónia, depois de Moscovo ter acusado Kiev de planear lançar drones militares a partir de território letão e de outros países bálticos. A resposta surgiu durante uma reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre a guerra na Ucrânia, noticia o ‘The Guardian’.

“Não há lugar para ameaças contra um membro do Conselho. Os Estados Unidos cumprem todos os seus compromissos com a NATO”, afirmou Tammy Bruce, vice-representante dos EUA nas Nações Unidas, em resposta às declarações do embaixador russo Vasily Nebenzya.

A Letónia é atualmente membro do Conselho de Segurança da ONU e pertence também à NATO, cuja defesa coletiva assenta no Artigo 5º: um ataque armado contra um Estado-membro é considerado um ataque contra todos. A declaração americana foi, por isso, lida como uma reafirmação direta do compromisso de Washington com a segurança dos aliados bálticos.

A tensão começou quando Nebenzya afirmou, perante o Conselho de Segurança, que Moscovo tinha informações de que a Ucrânia estaria a preparar lançamentos de drones militares a partir da Letónia e de outros países bálticos. O embaixador russo disse ainda que Kiev já teria enviado forças de drones para território letão.

“A inteligência estrangeira da Rússia afirmou que as coordenadas dos centros de tomada de decisão na Letónia são bem conhecidas, e a adesão à NATO não os protegerá de represálias”, declarou Nebenzya, falando através de intérprete, segundo a ‘Reuters’.

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A enviada letã ao Conselho de Segurança, Sanita Pavluta-Deslandes, rejeitou imediatamente as acusações, classificando-as como “pura ficção”. O representante da Ucrânia na ONU, Andriy Melnyk, também recusou as alegações russas, descrevendo-as como “contos de fadas” e acusando Moscovo de tentar fabricar pretextos para intimidar os países bálticos.

O Governo letão já tinha negado publicamente qualquer envolvimento na utilização do seu espaço aéreo para ataques contra a Rússia. A ministra dos Negócios Estrangeiros da Letónia, Baiba Braze, afirmou que o país “não fornece espaço aéreo para ataques à Rússia” e acusou Moscovo de promover uma campanha de desinformação. O Ministério dos Negócios Estrangeiros ucraniano também rejeitou as acusações e enquadrou-as numa estratégia russa para destabilizar a opinião pública nos países bálticos.

As declarações russas surgiram num momento de particular nervosismo na região. Esta terça-feira, um caça F-16 romeno destacado na missão de policiamento aéreo da NATO abateu um drone ucraniano que entrou no espaço aéreo da Estónia. Kiev pediu desculpa pelo incidente, mas atribuiu a entrada do aparelho em território báltico à interferência eletrónica russa, incluindo técnicas de bloqueio e manipulação de sinal.

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A Letónia emitiu também alertas de ameaça aérea devido à possível entrada de drones no seu espaço aéreo, aconselhando residentes perto da fronteira com a Rússia a permanecerem em casa. Jatos da missão de policiamento aéreo do Báltico foram mobilizados, mas as autoridades letãs acabaram por indicar que não encontraram provas da entrada de um drone em território nacional.

O Serviço de Informações Externas da Rússia, SVR, tinha publicado horas antes um comunicado em que acusava a Letónia de permitir que a Ucrânia usasse o seu território para ataques contra a Rússia. A agência russa afirmou que a pertença à NATO “não protegerá” alegados cúmplices de uma “justa retribuição”, formulação interpretada por Kiev e pelos aliados bálticos como uma ameaça militar direta.

Os países bálticos têm sido particularmente sensíveis a incidentes com drones desde o início da invasão russa da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Vários aparelhos russos e ucranianos já caíram ou entraram inadvertidamente em espaço aéreo de Estados da região, aumentando a pressão sobre as defesas aéreas da NATO no flanco leste.

Para Bruxelas, estes episódios reforçam a necessidade de acelerar projetos comuns de defesa aérea e antidrones. A Comissão Europeia tem defendido iniciativas como um escudo aéreo europeu e sistemas coordenados de deteção e interceção, sobretudo para proteger países expostos a incidentes transfronteiriços provocados pela guerra na Ucrânia.

A troca de acusações na ONU mostra como os incidentes com drones estão a transformar-se num novo foco de tensão entre a Rússia e a NATO. Moscovo acusa Kiev e os aliados bálticos de usarem território da Aliança para atacar a Rússia. A Ucrânia e os países bálticos rejeitam essa acusação e dizem que a Rússia está a tentar explorar incidentes provocados pela sua própria guerra eletrónica para ameaçar membros da NATO.

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A resposta americana procurou travar essa escalada verbal. Ao afirmar que “não há lugar para ameaças” contra a Letónia e que os EUA mantêm todos os compromissos com a NATO, Washington enviou uma mensagem dupla: rejeita as acusações russas e avisa Moscovo de que a proteção dos aliados bálticos continua em vigor.

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