Os aliados europeus dos Estados Unidos aguardam sinais mais claros de Washington sobre a esperada redução da presença militar americana na Europa, depois de vários anúncios terem gerado tensão dentro da NATO. Em causa estão, sobretudo, a retirada prevista de 5.000 soldados americanos da Alemanha e a decisão do Pentágono de não avançar, para já, com o envio de 4.000 militares para a Polónia.
A administração americana esclareceu que, no caso da Polónia, se trata de uma pausa e não de um cancelamento definitivo. Ainda assim, a decisão surpreendeu alguns aliados, até porque a Polónia é considerada uma peça central no flanco oriental da Aliança Atlântica e um dos parceiros europeus mais próximos de Washington em matéria de defesa.
O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, procurou desdramatizar a situação, afirmando que estas alterações fazem parte de uma “redistribuição de responsabilidades” dentro da Aliança. A ideia passa por os aliados europeus e o Canadá assumirem um papel mais forte na defesa convencional da região euro-atlântica, enquanto os Estados Unidos mantêm o compromisso com a dissuasão nuclear, mas com uma presença militar mais reduzida no terreno.
O conceito tem vindo a ser descrito em Washington como uma espécie de “NATO 3.0”: uma Aliança em que os europeus pagam mais, destacam mais forças e assumem maior responsabilidade operacional pela sua própria defesa, permitindo aos Estados Unidos concentrar mais recursos noutras frentes estratégicas, nomeadamente no Pacífico.
O problema, para vários aliados, não está apenas na direção da mudança, mas na forma como ela está a ser conduzida. Fontes diplomáticas citadas no texto apontam para falta de coordenação e de transparência por parte dos Estados Unidos, num momento em que a relação transatlântica já foi abalada por divergências sobre a operação americana e israelita contra o Irão.
A tensão, de acordo com o ‘El Confidencial’, aumentou depois de Donald Trump criticar aliados que não apoiaram politicamente o ataque a Teerão. Entre os casos referidos está Espanha, que não terá autorizado a utilização de bases militares no seu território. Em paralelo, alguns anúncios sobre tropas americanas na Europa foram interpretados por diplomatas como politicamente carregados, nomeadamente a redução de efetivos na Alemanha após críticas do governo de Friedrich Merz à operação contra o Irão.
O Pentágono explicou que a presença americana na Europa será reduzida de quatro para três batalhões, regressando a níveis próximos dos existentes em 2021, antes da invasão russa da Ucrânia. O Departamento de Defesa, liderado por Pete Hegseth, afirmou que o destino final destas forças será decidido com base nas necessidades estratégicas dos Estados Unidos e na capacidade dos aliados europeus para contribuírem para a defesa do continente.
Há, no entanto, outro ponto de preocupação: a decisão da Administração Trump de recuar no plano acordado durante a presidência de Joe Biden para estacionar mísseis Tomahawk na Alemanha. Estes sistemas poderiam atingir alvos a milhares de quilómetros de distância e eram vistos como uma resposta aos mísseis russos posicionados na Bielorrússia e em Kaliningrado, incluindo sistemas Iskander com capacidade para transportar ogivas nucleares.
A discussão insere-se numa mudança mais ampla dentro da NATO. Depois da cimeira de Haia, em junho de 2025, os aliados comprometeram-se a aumentar a despesa em defesa para 5% do PIB, dos quais 3,5% destinados a capacidades militares. Agora, o debate já não é apenas sobre quem paga, mas também sobre quem assume responsabilidades concretas no terreno.
Essa redistribuição começa também a refletir-se na estrutura de comando. Comandantes europeus deverão assumir maior protagonismo em centros de comando conjunto da NATO, enquanto os Estados Unidos procuram manter controlo sobre áreas estratégicas, incluindo forças marítimas, terrestres e aéreas.
O tema será discutido na reunião de ministros dos Negócios Estrangeiros da NATO, na Suécia, onde deverá estar presente o secretário de Estado americano, Marco Rubio. A questão deverá também preparar terreno para a próxima cimeira de líderes aliados em Ancara, em julho, onde a nova distribuição de responsabilidades militares dentro da Aliança poderá ficar mais clara.
No essencial, a NATO enfrenta agora uma transição delicada: a Europa sabe que terá de assumir maior peso na sua própria defesa, mas quer previsibilidade, coordenação e garantias de que a redução americana não abrirá falhas de segurança num momento em que a ameaça russa continua no centro das preocupações aliadas.





