Não tenha receio, experimente!

Por Sandra Maximiano, Professora Associada do ISEG

O antigo ministro da Solidariedade, Trabalho e Segurança Social, Pedro Mota Soares, numa entrevista ao jornal digital ECO, e a propósito do debate em Espanha sobre a semana de trabalho de quatro dias, afirmou que “não é realista” reduzir a semana de trabalho em Portugal porque “o país precisa de aumentar a sua produtividade.” 

É verdade que, em geral, precisamos de ser mais produtivos. Em 2020, em Portugal, e segundo os dados da Pordata, por cada hora de trabalho criou-se, em média, 23.8 euros de riqueza enquanto que a média europeia situa-se nos 41.8 euros. Mas chegaremos lá a trabalhar mais horas? Muito provavelmente não. Mota Soares caiu no erro típico de confundir produção com produtividade. O que precisamos é de sermos mais eficientes e produzir mais por cada hora de trabalho ou, alternativamente, de produzir o mesmo em menos tempo. Mota Soares esqueceu-se também da chamada lei dos rendimentos marginais decrescentes. Ou seja, que não somos robots e que se já trabalharmos um grande número de horas, uma hora adicional não implica um aumento proporcional da produção. Mais, trabalhadores cansados estão mais propensos a cometer erros.

Para aumentar a produtividade do país é preciso atuar a nível microeconómico. É necessário que as empresas públicas e privadas e que os organismos do Estado inovem cada vez mais. Por um lado, que adaptem novas tecnologias, digitais e não digitais, por outro que implementem inovações organizacionais que permitam reduzir o tempo gasto em tarefas desnecessárias, como por exemplo, reuniões e comunicações escritas longas onde a mensagem essencial se perde. É imprescindível também humanizar o fator trabalho, fomentando a criatividade e a felicidade dentro da organização.

A redução do tempo de trabalho e a flexibilidade dos horários, tão temida por alguns, fazem parte de uma lista longa de incentivos cuja eficácia no aumento da produtividade foi já testada, quer através de experiências laboratoriais, quer através de experiências feitas no contexto organizativo e empresarial. Entre a panóplia de outras sugestões que poderia aqui deixar, destaco, primeiro, a importância da criação de um ambiente propício ao feedback. Não são apenas os trabalhadores que precisam de receber feedback por parte das chefias, mas estas precisam de criar a confiança necessária para que os trabalhadores reportem o que funciona menos bem e sugiram mudanças. Segundo, não se pode descurar o óbvio e a importância dos bónus e outros incentivos financeiros. Terceiro, aplicar uma série de incentivos informais, mas que aumentam a moral dos colaboradores, tais como notas de agradecimento, reconhecimento privado e público, atribuição de maior responsabilidade e autonomia e redução do controlo e monitorização constante. Quarto, promover uma competição colaborativa entre equipas promovendo valores como a reciprocidade e confiança. Por último, criar ambientes de trabalho e espaços de convívio que explorem experiências sensoriais, tais como o uso de plantas, arte e música de fundo.

Mas uma questão fundamental coloca-se. Como saber o que funciona em cada organização com as idiossincrasias produtivas e as preferências individuais das pessoas que a compõem? Alguns trabalhadores responderão positivamente e outros negativamente a diferentes estratégias, incentivos e alterações contextuais. Por exemplo, haverá quem entenda a generosidade da redução do número de horas de trabalho, reciprocando com mais empenho e motivação e quem o assuma como um direito garantido. Há quem não precise de incentivos monetários extra porque está intrinsecamente motivado para desempenhar uma tarefa e há quem a esteja a desempenhar apenas tendo em vista a remuneração monetária. Há quem valorize uma formação constante e quem a ache um aborrecimento.  No fundo, não há uma receita única que cada organização possa aplicar. O melhor é não rejeitar à partida possíveis soluções com base no medo e na inércia e testar, de uma forma experimental e controlada, por vezes, numa escala reduzida, diferentes estratégias e incentivos formais e não formais.

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