O ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia, Sergey Lavrov, voltou a afastar a possibilidade de avanços diplomáticos imediatos para pôr fim à guerra na Ucrânia, defendendo que o resultado do conflito será determinado pelas ações militares no terreno e não por negociações políticas.
As declarações foram feitas esta segunda-feira, numa altura em que Moscovo continua a rejeitar as tentativas de Kiev para promover contactos diretos entre o presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, e o líder russo, Vladimir Putin.
Lavrov dirigiu críticas à carta aberta divulgada na semana passada por Zelensky, na qual o presidente ucraniano propôs uma reunião direta com Putin para discutir um cessar-fogo e possíveis caminhos para a paz.
Segundo o chefe da diplomacia russa, o facto de a mensagem ter sido tornada pública demonstra uma alegada falta de interesse da Ucrânia em negociações sérias.
Lavrov afirmou que Moscovo considera inadequada a forma como a carta foi divulgada, argumentando que “as pessoas educadas não se comportam desta forma” e criticando o facto de o documento ter sido difundido internacionalmente.
O ministro sustentou ainda que, na perspetiva do Kremlin, a iniciativa revela que Kiev não está verdadeiramente empenhada em alcançar um acordo negociado, apesar das várias tentativas anunciadas pela Ucrânia para promover conversações com a Rússia.
Rússia insiste que o resultado será decidido na frente de combate
Nas suas declarações, Lavrov retomou uma posição já expressa anteriormente por Vladimir Putin, segundo a qual o fator decisivo para o desfecho da guerra não será o diálogo diplomático.
O ministro russo reiterou que “não são as negociações, mas as ações dos envolvidos” no conflito que terão impacto direto no resultado final da invasão em grande escala lançada por Moscovo contra a Ucrânia.
A posição surge poucos dias depois de Putin ter rejeitado formalmente o pedido de encontro apresentado por Zelensky durante o Fórum Económico Internacional de São Petersburgo.
Na ocasião, o presidente russo declarou que não via qualquer utilidade num encontro com o homólogo ucraniano, afirmando que “não vê sentido” numa reunião direta entre ambos.
Líderes europeus apoiam proposta ucraniana
A proposta de Zelensky recebeu entretanto o apoio de vários aliados europeus.
No domingo, os líderes da França, Alemanha e Reino Unido juntaram-se ao presidente ucraniano numa declaração conjunta que definiu cinco condições consideradas essenciais para alcançar uma “paz justa e duradoura”.
Entre essas exigências figuram um cessar-fogo imediato e abrangente, bem como a realização de negociações assentes na atual linha de contacto entre os exércitos dos dois países.
A iniciativa procurou reforçar a pressão diplomática sobre Moscovo para aceitar um processo negocial mais abrangente, mas foi rapidamente rejeitada pelas autoridades russas.
Kremlin acusa Europa de contradizer discurso de paz
Também esta segunda-feira, o porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, criticou a posição assumida pelos líderes europeus.
Segundo Peskov, os governos europeus estariam a comprometer os próprios apelos à paz ao continuarem a fornecer apoio militar à Ucrânia.
“Gostaria de salientar que Macron, Starmer e Merz falam de paz. Ao mesmo tempo, sublinham a sua intenção de ajudar a Ucrânia a produzir novos tipos de armamento”, afirmou o responsável russo.
Para Moscovo, o reforço da assistência militar ocidental demonstra uma contradição entre o discurso político europeu e as medidas concretas adotadas pelos aliados de Kiev.
Lavrov manifesta desilusão com os Estados Unidos
Além das críticas dirigidas à Ucrânia e aos países europeus, Lavrov apontou também o dedo aos Estados Unidos.
O ministro declarou que Washington não tem demonstrado interesse em retomar aquilo que Moscovo descreve como entendimentos alcançados anteriormente entre os dois países.
“Espero sinceramente que a experiência de fracassos anteriores, quando o Ocidente recusou cumprir acordos que ele próprio apoiou, não se repita”, afirmou Lavrov, acrescentando que, “até agora, para grande pesar nosso, os parceiros americanos não demonstraram qualquer interesse nisso”.
O chefe da diplomacia russa mostrou igualmente preocupação com declarações recentes do secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, que afirmou perante o Congresso dos EUA que Washington não pode desempenhar um papel de mediador neutro porque apoia a Ucrânia.
Lavrov comparou essa posição às declarações feitas por Kaja Kallas e por outros responsáveis europeus.
Apesar das críticas russas, Marco Rubio afirmou recentemente que os Estados Unidos não veem uma solução militar para a guerra.
Durante uma audição realizada a 3 de junho, o secretário de Estado norte-americano declarou que o conflito apenas poderá terminar através da diplomacia, embora tenha reconhecido que a falta de vontade das partes para fazer concessões continua a dificultar qualquer avanço.
Rubio garantiu ainda que Washington continuará a apoiar iniciativas destinadas a alcançar a paz, sustentando que a guerra na Ucrânia não possui uma solução exclusivamente militar.













