“Não queremos ser carne para canhão”: jovens alemães recusam o serviço militar e travam o plano de rearmamento de Berlim

Departamento Federal para os Assuntos da Família e da Sociedade Civil recebeu 5.862 pedidos de objeção de consciência durante o primeiro semestre de 2026, ultrapassando já os 3.879 registados em todo o ano passado

Francisco Laranjeira

O número de jovens alemães que pedem o reconhecimento como objetores de consciência e recusam prestar serviço militar aumentou de forma acentuada, numa altura em que Berlim procura reforçar as Forças Armadas e construir o exército convencional mais poderoso da Europa.

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Segundo o ‘El Español’, o Departamento Federal para os Assuntos da Família e da Sociedade Civil recebeu 5.862 pedidos de objeção de consciência durante o primeiro semestre de 2026, ultrapassando já os 3.879 registados em todo o ano passado.

A subida torna-se ainda mais evidente quando comparada com 2024, ano em que foram apresentados 2.249 pedidos. Até ao final de maio, 2.667 requerimentos tinham sido aceites, comparativamente com 2.830 aprovações durante todo o ano de 2025.

A Constituição alemã reconhece o direito à objeção de consciência e determina que ninguém pode ser obrigado, contra as suas convicções, a prestar serviço militar que envolva o uso de armas.

Embora o serviço militar obrigatório permaneça suspenso desde 2011, os pedidos podem funcionar como medida preventiva perante a possibilidade de a conscrição voltar a ser aplicada.

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Este ano, todos os homens alemães com mais de 18 anos passaram a ter de preencher um formulário sobre a disponibilidade para servir nas Forças Armadas e a submeter-se a uma avaliação médica. As mulheres são convidadas a voluntariar-se, mas não estão sujeitas ao mesmo processo obrigatório.

O novo modelo de recrutamento foi apresentado pelo ministro da Defesa, Boris Pistorius, que pretende aumentar o número de militares no ativo para 260 mil até 2035.

Os partidos conservadores da União Democrata-Cristã e da União Social-Cristã, que lideram o Governo, já avisaram que o serviço militar obrigatório poderá regressar caso o recrutamento voluntário não produza resultados suficientes. Essa alteração exigiria, contudo, nova legislação.

O aumento das objeções é atribuído, em parte, ao novo sistema de recrutamento que entrou em vigor no início de 2026 e ao receio de que militares alemães possam vir a ser envolvidos em conflitos internacionais.

Entre os cenários que alimentam a preocupação encontram-se uma eventual intervenção no Estreito de Ormuz e uma futura operação de manutenção da paz na Ucrânia depois do fim da guerra.

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A Alemanha dispõe atualmente de cerca de 186 mil militares no ativo, depois de ter reduzido profundamente o efetivo e os meios das Forças Armadas nas décadas que se seguiram à Guerra Fria.

A invasão da Ucrânia pela Rússia, a crescente instabilidade internacional e a pressão exercida pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, levaram Berlim a acelerar o rearmamento e a abandonar progressivamente a tradicional contenção militar do pós-guerra.

Para obter o estatuto de objetor de consciência, os candidatos têm de apresentar uma carta assinada, um currículo e uma declaração pessoal explicando as razões morais ou religiosas que os impedem de prestar serviço armado.

Apesar do aumento dos pedidos, também cresceu o número de pessoas que pretendem renunciar ao estatuto de objetor anteriormente reconhecido. De acordo com dados citados pelo jornal ‘Neue Osnabrücker’, 233 pessoas desistiram desse direito durante o primeiro trimestre de 2026, depois de 781 o terem feito ao longo de 2025.

Quem mantenha o estatuto de objetor poderá, ainda assim, ser chamado a desempenhar funções civis em caso de emergência nacional ou de segurança.

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As sondagens apontam para um apoio significativo ao reforço das Forças Armadas, mas a política tem provocado resistência entre os mais jovens. Milhares de estudantes participaram este ano em protestos e greves escolares contra o rearmamento e o eventual regresso da conscrição, acusando o Governo de querer transformá-los em “carne para canhão”.

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