As tempestades que têm atingido Portugal voltaram a colocar sob escrutínio o modelo de planeamento urbano e a forma como as cidades estão preparadas para enfrentar as alterações climáticas, avançou esta sexta-feira a ‘Euronews’.
Casas destelhadas, árvores derrubadas, estradas abatidas e ruas transformadas em autênticos rios tornaram-se imagens recorrentes nos últimos dias. As depressões sucessivas provocaram cortes de eletricidade, água e comunicações, milhares de desalojados e mais de uma dezena de mortes associadas direta ou indiretamente ao mau tempo.
Para Maria do Rosário Partidário, professora catedrática de Planeamento, Urbanismo e Ambiente no Instituto Superior Técnico da Universidade de Lisboa, o problema é estrutural. Em declarações à ‘Euronews’, a especialista afirmou que “falhou o planeamento” e sublinha que a realidade não é nova. Durante anos, diz, a preocupação foi insuficiente e muitas medidas ficaram por concretizar.
A crítica centrou-se na crescente impermeabilização dos solos e na ocupação de zonas de risco. “Há um completo desprezo por aquilo que são as permeabilidades do território”, afirma. E resume numa frase que sintetiza o problema:
“Não há espaço para água”
A metáfora é simples: como se a água, em vez de infiltrar num passador, fosse despejada para dentro de um copo até transbordar. A construção excessiva de parques de estacionamento, rotundas e centros comerciais, bem como a ausência de bacias de retenção e de planos eficazes de drenagem, contribuem para agravar as cheias.
A especialista aponta ainda para a edificação em zonas vulneráveis, a proliferação de construção precária e a utilização de materiais pouco resistentes. Recorda, por exemplo, que a tempestade Kristin registou rajadas superiores a 180 km/h, ultrapassando os 150 km/h para os quais muitos postes da REN estavam preparados, o que levou à desativação de 774 quilómetros de linhas de muito alta tensão e à queda de 61 postes.
Também a rutura de um dique do rio Mondego, em Coimbra, reacendeu o debate sobre manutenção de infraestruturas. O sistema de diques, construído entre o final da década de 1970 e meados dos anos 80, já tinha sofrido colapsos anteriores. Para a especialista, a prevenção e a avaliação de riscos à luz das alterações climáticas continuam a ser insuficientes.
Apesar de Portugal ter adotado, em 2007, a Avaliação Ambiental Estratégica no âmbito de uma diretiva europeia, muitos estudos e planos “não saem do papel” ou carecem de acompanhamento. As questões climáticas, sustenta Maria do Rosário Partidário, continuam frequentemente relegadas para segundo plano no ordenamento municipal.
Um exemplo de resposta estruturada é o Plano Geral de Drenagem de Lisboa, iniciado em 2016, que inclui bacias de retenção e dois túneis de grande dimensão para captar águas pluviais. Avaliado em 250 milhões de euros, o projeto surge, no entanto, após sucessivas cheias na capital, o que, para a especialista, demonstra uma abordagem reativa e não preventiva.
Em contraste, a Bacia de Retenção do Parque Urbano da Várzea, em Setúbal, é apontada como caso de sucesso. Projetada em 2018, a infraestrutura foi determinante para proteger o centro da cidade durante as recentes tempestades, tendo utilizado apenas 20% da sua capacidade durante a passagem da tempestade Leonardo. O sistema, que integra bacias com capacidade total de cerca de 300 mil metros cúbicos de água, alia retenção hídrica à plantação de 1.290 árvores e à utilização de betão poroso nos caminhos pedonais, permitindo maior infiltração.
Para Maria do Rosário Partidário, soluções baseadas na natureza, como bacias de retenção e reforço de espaços verdes, são essenciais para adaptar as cidades. Além de melhorarem a qualidade do ar e mitigarem ondas de calor, as árvores desempenham um papel decisivo na absorção de água pelo solo.
A especialista defende que é preciso “voltar às origens” e integrar a natureza no tecido urbano, com envolvimento das comunidades e uma estratégia de longo prazo. No futuro, conclui, o ordenamento das cidades terá de colocar a proteção ambiental e o bem-estar das pessoas no centro das decisões, sob pena de as próximas tempestades voltarem a expor as mesmas fragilidades.










