O petróleo voltou a assustar o mundo. Mas o que está em causa pode ser maior do que mais uma subida nos preços ou mais um sobressalto no Médio Oriente. Na análise publicada no ‘The Conversation’, Flavio Macau, associate dean da School of Business and Law da Edith Cowan University, na Austrália, defende que a questão central pode já não ser apenas a guerra entre os Estados Unidos, Israel e o Irão, mas sim o possível fim do petróleo barato.
O primeiro impacto vê-se no mapa. O Estreito de Ormuz, por onde passa normalmente cerca de 20% do petróleo e do gás consumidos no planeta, continua praticamente fechado ao tráfego marítimo. Só isso bastaria para lançar nervosismo nos mercados. Mas o problema não está apenas no bloqueio. Está também na incerteza sobre a sua duração, nos seguros que disparam, nas rotas que se alongam para evitar a região e nos navios que deixam de circular como antes.
É esse ambiente que alimenta o chamado ‘prémio de risco’ no petróleo: um custo extra que não resulta apenas da escassez imediata, mas do medo de que a oferta continue sob ameaça. Os preços já recuaram dos máximos mais recentes e voltaram a cair abaixo dos 100 dólares por barril, com novos sinais de esperança num acordo de paz. Ainda assim, continuam acima do que foi, durante algum tempo, a zona de conforto dos mercados.
Antes da guerra, o barril movia-se há anos entre os 70 e os 80 dólares. Não era barato no sentido romântico da palavra, mas era previsível. E, em economia, a previsibilidade vale quase tanto como o preço. É precisamente essa sensação de normalidade que o artigo põe em causa.
Porque o verdadeiro choque pode não estar apenas no que está a acontecer agora, mas no que pode deixar de existir daqui para a frente, indicou o especialista. Talvez o problema já não seja saber quando é que o mercado volta ao normal. Talvez seja perceber que o velho normal, assente em energia abundante, relativamente estável e suportável no preço, já não volte da mesma forma.
É aqui que o texto se torna mais interessante. O petróleo não pesa apenas no custo de encher o depósito. A sua influência infiltra-se em quase tudo o que compõe a vida material moderna. Está nos combustíveis que movem carros, camiões e aviões, mas também nos fertilizantes usados na agricultura e, por arrasto, no preço dos alimentos.
E a lista não fica por aí. Petroquímicos derivados do petróleo e do gás entram no fabrico de milhares de produtos do quotidiano. Plásticos, medicamentos, detergentes, pasta de dentes, tintas, corantes. Coisas banais, aparentemente distantes das plataformas petrolíferas, mas que vivem agarradas a essa mesma matéria-prima.
A construção merece um capítulo à parte. Asfalto, isolamento, tubos, membranas, tintas, encaixes, materiais compósitos — grande parte desse universo depende do petróleo ou do gás, seja como matéria-prima, seja como energia para fabricar. Até tijolos e muitos produtos cerâmicos carregam essa dependência. E depois há o custo de transportar tudo até à obra. Num tempo em que a habitação já pesa demasiado no orçamento das famílias, esta é mais uma pressão silenciosa.
A ideia central é esta: mais do que uma crise momentânea, podemos estar perante o fim do petróleo barato.
A distinção é decisiva. O mundo já viveu vários choques petrolíferos e, quase sempre, a história repetiu-se: quando parecia que a oferta ia falhar, surgiam novas descobertas, novas técnicas ou novas formas de substituição. A extração em águas profundas abriu novos horizontes. O fracking libertou reservas antes inacessíveis e ajudou os EUA a tornarem-se o maior produtor mundial de crude no final da década de 2010.
Durante muito tempo, esse foi o argumento tranquilizador: o petróleo podia encarecer, mas o sistema acabaria por encontrar uma forma de responder. Só que desta vez há um elemento diferente. Se infraestruturas centrais no Médio Oriente sofreram danos sérios, com reparações que podem arrastar-se durante anos, então a discussão muda de natureza. A questão já não é apenas saber se o petróleo existe. É saber se pode continuar a chegar ao mundo de forma barata, fiável e em escala suficiente.
Há ainda uma segunda mudança, menos visível mas igualmente importante. Durante anos, a economia global habituou-se a funcionar em modo ‘just in time’. Produzir o necessário, receber no momento certo, armazenar o mínimo possível. Era eficiente, elegante e barato — enquanto tudo corria bem.
A pandemia expôs as fragilidades desse modelo. A guerra na Ucrânia agravou-as. Agora, com o Médio Oriente novamente em tensão extrema, ganha força a lógica do ‘just in case’: guardar mais, criar redundâncias, reforçar reservas, aceitar custos adicionais para prevenir o pior.
O problema é que a resiliência custa dinheiro. Manter mais petróleo e gás do que o estritamente necessário implica construir armazenamento, reforçar infraestruturas, pagar mais seguros e suportar um sistema menos enxuto. É um novo preço da segurança. E, no fim, alguém o paga.
Daí a consequência mais difícil de ignorar: mesmo que o mundo se adapte, isso não significa que volte a ser barato viver nele. Governos podem ser pressionados a subsidiar combustíveis, reforçar reservas estratégicas e intervir nos mercados. Isso significa mais despesa pública, mais défice e menos margem de manobra. Ao mesmo tempo, as famílias ficam com menos rendimento disponível para tudo o que não seja essencial.
Claro que haverá adaptação. Ela já começou. Mais transportes públicos, menos deslocações, mais eletrificação de carros e casas, mais investimento em eficiência energética. Em muitos setores, a transição verde pode acelerar não por convicção ambiental, mas porque passou a fazer sentido nas contas.
Mas o ponto mais duro do artigo é outro: adaptar-se não é o mesmo que libertar-se. O petróleo pode continuar essencial durante muito tempo, mesmo deixando de ser barato, estável ou politicamente neutro. E isso muda quase tudo.
Durante décadas, o mundo habituou-se a tratar o petróleo como um risco cíclico. Sobe com uma crise, desce com um cessar-fogo, volta ao lugar quando a tensão abranda. O que este texto sugere é que esse reflexo pode já não bastar. Talvez não estejamos apenas perante mais uma crise energética. Talvez estejamos a assistir ao desgaste lento de uma era.
E quando o petróleo deixa de ser barato, a conta acaba por aparecer muito para lá da bomba de gasolina.





