Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma

Por Maria Rosa Borges, Economista e Professora do ISEG

Urge mudar o paradigma da produção e consumo de bens. Os bens são produzidos utilizando recursos que são escassos, cada vez mais escassos. O desperdício é enorme e a população cresce desmesuradamente pelo mundo inteiro. O ambiente sofre e a sociedade vê a sua sustentabilidade ser posta em causa.

As economias lineares (por oposição às economias circulares) atuam como se os recursos fossem inesgotáveis, os processos produtivos utilizam matérias-primas sem restrições e produzem uma quantidade substancial de resíduos, havendo muito pouco aproveitamento dos desperdícios industriais e pouca reutilização de bens já produzidos e utilizados pelos consumidores. O consumo vai sendo sucessivamente alimentado com a produção de novos produtos, que rapidamente tornam desatualizados os antigos, que não se reutilizam e não se restauram, não voltando a entrar na cadeia de consumo como novos consumos de bens regenerados, nem como novos inputs do processo produtivo. Ao mesmo tempo, a população em crescendo necessita de sustentar a sua existência. Acresce ainda que, a este tipo de economia se associa um conjunto grande de problemas ambientais, como sejam, por exemplo, as alterações climáticas, o lixo e a poluição.

É neste quadro que muitas empresas e governos procuram, de forma ainda tímida, investir em novos modelos de negócio, que contrariem estas tendências, e na criação de uma cultura de combate ao desperdício junto das empresas, mas também junto dos consumidores. A economia circular encontra aqui o enquadramento para se desenvolver e mitigar as consequências negativas da economia linear.

O conceito de economia circular surge nos inícios do século XXI, altura em que se desenvolveram inúmeros estudos que enfatizavam os problemas da economia tradicional e apontavam para a necessidade de mudança do paradigma da produção e do consumo. A Economia circular está muito para além dos objetivos de sustentabilidade ambiental, assumindo uma perspetiva mais ampla, ao considerar a necessidade de um sistema de produção e consumo regenerativo e restaurativo. O seu principal objetivo é a redução do desperdício em todas as fases do processo produtivo e do consumo, garantindo a criação de uma riqueza sustentável e amiga do ambiente.

No fim da sua vida, os produtos produzidos retornam ao processo produtivo para serem reciclados, readaptados ou re-manufaturados e utilizados em diversos outros produtos e, para isso, é importante a escolha de matérias-primas que possam ser recuperadas. Desta forma, eliminar-se-ão resíduos e manter-se-ão durante mais tempo os materiais em uso. Os materiais movimentar-se-ão em círculos, prolongando-se a sua utilização no tempo e sua produtividade aumentará. Na economia circular o resíduo é visto como um recurso.

Esta atuação por parte dos agentes económicos é garante de uma maior eco-eficácia do sistema económico, fazendo com que a sustentabilidade na produção de bens dependa menos dos recursos existentes na natureza, enquanto traz benefícios económicos para as empresas e benefícios ambientais para as sociedades. Não pode encontrar melhor aplicação, a afirmação sábia de Lavoisier que “Na natureza, nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. E esta é a essência da economia circular.

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