Na blocalização o sol também não se põe

Por Nelson Pires, General Manager da Jaba Recordati

Em 1922 no império britânico o sol não se punha. O mesmo aconteceu com a globalização. E agora que morreu continuamos a verificar o mesmo com a Blocalização. 

O monitor de Investimento directo estrangeiro da EY de 2022 demonstra claramente a opinião da blocalização: 53% dos inquiridos (gestores de empresas) irão reestruturar a sua supply chain para o “near shoring” e 45% para um modelo regional (ou blocal) se quisermos, mudando o paradigma do offshoring que conhecemos. Sendo que 36% referem que irão reduzir a dependência de apenas um fornecedor para “multisourcing”. Apenas 43% referem que irão optar pelo modelo “onshoring” sendo que aqui está relacionado (em minha opinião) com os 34% que pretendem reforçar a sua presença industrial na Europa. O investimento estratégico estrangeiro na Europa espera-se que aumente 5% segundo o estudo. Por último, este estudo foi feito antes da invasão ilegal da Ucrânia pela Rússia, o que me parece que reforçou está opinião atrás referida. Sendo assim, conforme afirmei variadas vezes, julgo que irão existir 3 blocos económico – sociais e políticos- a formar-se, cada um em seu continente. Portanto a Blocalização, e nesta o sol também não se vai pôr nos 3 blocos que vão existir. 

Os critérios de identidade comum terão muito a ver com a geografia (proximidade e permitir tornarem-se blocos regionais – “Nearshoring”), com o modelo democrático, com as práticas de respeito pelos princípios dos direitos humanos (ex: a existência de trabalho infantil), com a dimensão dos mercados que compõem o bloco que terá que ser autossustentável em termos de produção e de consumo, o nível de adoção de tecnologia que deve ser comum dentro do bloco,  a sustentabilidade e ecoresponsabilidade, qualidade do talento dos recursos humanos, a estabilidade fiscal e governativa, a qualidade de vida e respeito pela diversidade, a existência de infraestruturas de transporte  / telecomunicações / energéticas interligadas dentro do bloco, a capacidade de I&D e inovação, finalmente a segurança.

O primeiro dos blocos por uma questão geográfica (e não importância), é o Bloco do novo mundo, ou seja dos países do continente Americano. Neste continente existem 36 países e 18 dependências, distribuídos nos três subcontinentes. Mas julgo que o bloco será constituído pelos EUA, Canadá, México, barbados, Belize, Bahamas, Costa Rica, República Dominicana, Chile, Colômbia, equador, peru, Uruguai. Alguns dos restantes países não entrarão neste bloco. Os 3 primeiros países têm uma população de cerca de 579.000 pessoas e possuem já um acordo de livre comércio, o USMCA, que também é conhecido como “Nafta 2.0”.  Os países da América do Sul, maioritariamente fora do bloco Novo Mundo, possuem também um acordo denominado Mercosul e muitos recursos naturais, como o petróleo e minérios. 

O 2º bloco estará localizado na Europa e parcialmente na África. Já existe a União Europeia e estes países em conjunto com alguns dos países do Norte de África como Tunísia, Marrocos, Mauritânia, Argélia, Senegal, Mali e Costa do Marfim irão constituir o segundo bloco com Portugal no centro. Admito que África possa incluir mais alguns países dos 58 existentes, pois 18 são considerados democracias reais segundo um relatório do Instituto Internacional para a Democracia e Assistência Eleitoral (IDEA, na sigla em inglês). Será o “ Mundo Maduro”. Mas sempre tendo em conta o “nearshoring” e os valores democráticos equilibrados. Pois este relatório revela que o mundo, nomeadamente o continente Africano, está a tornar-se mais autoritário e que os governos democráticos estão a retroceder (apenas considera existirem 18 existentes em 58 países), recorrendo a práticas repressivas e enfraquecendo o Estado de Direito. A pandemia de Covid-19 aprofundou a tendência da deterioração democrática, concluindo que, a nível global, 64% dos países tomaram uma medida considerada desproporcional, desnecessária ou ilegal para conter pandemia. Esta teve um impacto que resultou sobretudo em declínios das liberdades civis, especialmente na liberdade de expressão, liberdade de associação e reunião e na emergência de novas formas de desigualdades sociais. Pelo menos 29 países reduziram a liberdade de expressão ao criminalizarem a desinformação sobre a pandemia e ao adotarem leis que restringiram a liberdade na Internet. O survey 2022 do FDI da EY  (investimento directo estrangeiro) coloca Portugal no oitavo lugar do destino do FDI na Europa apesar de crescer +30% (mas em valores absolutos menos que outros). Mas quando vemos os motivos que motivam os investidores a escolher um país, Portugal apenas fica atrás em 2: liquidez do mercado / disponibilidade de capital e dimensão do mercado. Em todas as outras estamos no grupo dos melhores, acima de quase todos os países aqui representados. Daí que julgo que a Blocalização traz uma oportunidade fundamental para Portugal, com a perspectiva de se tornar num país do “Mundo maduro” mas com uma perspectiva multibloco.

Finalmente o “Novíssimo mundo” que inclui a Ásia. É o continente mais extenso, o que apresenta a maior densidade populacional. Acrescentamos a Oceania a este bloco. Portanto temos um bloco composto pela Coreia do Sul, Japão, Malásia, Austrália, Nova Zelândia, Filipinas bem como muitos dos outros 13 pequenos países da Oceania. Tendencialmente bastante inovadores, com uma dimensão alargada mas dificuldades logísticas por alguns estados e conflitos locais como no mar da China, na Coreia do Norte, entre outros.

De fora ficarão a Índia, a Rússia, Brasil e a China. Embora a China concentra em si 20% da classe média mundial e 1,4 biliões de cidadãos, ou seja é quase de per si um bloco unitário. É o país mais exportador do mundo. Mas que neste momento está a passar por uma mudança estrutural, passando de uma economia baseada na vertente industrial e nas exportações para uma situação em que o consumo interno e os serviços passam a ser cada vez mais importantes. O setor comercial da China, que responde por cerca de um terço do Produto Interno Bruto, está perdendo força à medida que lockdowns em grandes centros como Xangai afetam as cadeias de abastecimento, aumentando os riscos de uma desaceleração mais profunda. Em 2020, quase 80% das exportações chinesas consistia em mercadorias fabricadas, a maioria das quais são tecidos, equipamentos eletrônicos, produtos químicos e agrícolas. Dos cinco portos mais ativos do mundo, três estão na China. Embora para o investimento estrangeiro existem ainda preocupações relevantes como o regime centralizado, o desrespeito pela propriedade intelectual e o valor artificialmente baixo do yuan. A China tem vários parveiros relevantes como o Brasil, sendo o maior parceiro comercial do Brasil em volume de vendas, mas que obviamente corre o risco do “offshoring”. Outro potencial parceiro é a Rússia que é um dos maiores fornecedores de energia fóssil para a China. Corre o risco de sofrer os riscos do boicote á Rússia e ficar “colado” a um regime com um PIB reduzido (Rússia), autocrático mas com recursos energéticos substanciais.

Em suma, a globalização morreu e o mundo vai ser blocal , tendo de se auto-regular para se reequilibrar! Darwin referia e com acuidade, que “o sobrevivente não é o mais inteligente, mas o que mais rapidamente se adapta”!

Ler Mais

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não será publicado.