O Médio Oriente é um amplo campo de batalha – Líbano, Cisjordânia, Gaza, Iémen, Síria e Iraque – em que a Faixa de Gaza representa o epicentro de todos os conflitos: no enclave palestiniano, Israel continua as suas operações de limpeza, apesar do Ramadão, a data limite imposta por Telavive para o Hamas libertar todos os israelitas raptados.
Nos dois terços superiores da Faixa de Gaza, as Forças de Defesa de Israel (IDF) têm dirigido os seus esforços contra grupos terroristas do Hamas, bem como a localização e destruição das suas infraestruturas de superfície e subterrâneas.
Esta semana, lembrou a publicação espanhola ‘ABC’, as IDF operaram nas grandes instalações do hospital Al Shifa, no bairro de Al Rimal, a oeste da cidade de Gaza, onde, apesar de terem sido ‘limpas’ há quase três meses, a Inteligência israelita descobriu o reagrupamento de elementos proeminentes do Hamas, para reorganizar e conduzir os grupos terroristas ainda operacionais.
No terço inferior de Gaza, o poder de combate israelita concentra-se em Khan Younis e Rafah, embora nesta última com operações contidas para evitar danos colaterais devido à superlotação de 1,3 milhões de palestinianos, dos quais três quartos estão deslocados.
Mas, mais cedo ou mais tarde, as IDF terão de ‘limpar’ Rafah, um cenário que tem gerado enormes pressões, tanto internas como internacionais, sobre Telavive. Em Israel, há uma exigência ao Governo, por parte dos familiares dos sequestrados, para decretar um cessar-fogo que favoreça a libertação dos israelitas detidos pelo Hamas.
Então, porque não faz um cessar-fogo?
Internacionalmente, os Estados Unidos, o grande apoiante de Israel, têm colocado pressão extrema, apesar das duas forças que dividem a Casa Branca – por um lado, o Partido Democrata, de Joe Biden, que em ano eleitoral pretende que o presidente americano obrigue Telavive a decretar um cessar-fogo “humanitário”; por outro, o poderoso ‘lobby’ judeu dos Estados Unidos, que pretende que Biden apoie inabalavelmente a política de Telavive.
Num ambiente difícil, a 20 de fevereiro último, os Estados Unidos aplicaram o seu terceiro veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas a uma resolução que exigia um cessar-fogo imediato em Gaza. Por outro lado, foi criado um corredor marítimo humanitário, inaugurado pelo navio da ONG espanhola ‘Open Arms’, que rebocou uma barcaça com 200 toneladas de alimentos, desde o Chipre até a um cais a sudoeste da Cidade de Gaza.
No passado sábado, e sob estrito controlo de segurança das IDF, os abastecimentos foram transferidos para camiões com destino à parte norte da Faixa de Gaza – apesar do ‘paliativo’, foi o suficiente para Washington ‘salvar a face’.
As pressões internacionais levaram o Governo de Israel a enviar uma delegação a Doha (Qatar), presidida pelo diretor da Mossad, David Barnea, para discutir com o país anfitrião, dos Estados Unidos e do Egito, as condições para um potencial cessar-fogo e a troca dos reféns.
No entanto, dificilmente as negociações vão ter uma conclusão bem-sucedida num futuro próximo: o Hamas procura uma negociação em três etapas, que começaria com uma trégua para trocar 30 israelitas reféns por 300 palestinianos em prisões israelitas.
Uma segunda fase traria um cessar-fogo permanente e a troca de todos os raptados por prisioneiros palestinianos. Por último, a terceira fase, que iria envolver a troca dos corpos dos reféns falecidos por mais presos, assim como a retirada das IDF da Faixa de Gaza.
O plano garantiria a sobrevivência do Hamas, o que é, em grande medida, incompatível com dois objetivos essenciais de Telavive após o massacre de 7 de outubro: destruir a capacidade operacional do Hamas e libertar todos os reféns.
Parece, portanto, improvável que o Governo israelita aceite as reivindicações do Hamas. Porque concordar com um cessar-fogo permanente sem ter alcançado os seus objetivos seria como perder a guerra. Um luxo que Telavive não se pode permitir se pretende garantir a sua própria sobrevivência.













