Muito mais o que nos une, do que o que nos separa

Por Nuno España, Gestor

Esta sexta feira, a propósito do jogo de preparação para o Euro, Espanha-Portugal, foi oficializada a candidatura ibérica para o Mundial de 2030. Sendo eu um híbrido ibérico – metade português, metade espanhol – senti-me estranhamente equilibrado. A chamada win-win situation. Nunca consegui escolher uma seleção e sempre vibrei por ambas. Fosse qual fosse o resultado, ganharia sempre. O que na vida, como bem sabemos, não é típico. No fundo, talvez fosse uma sensação muito semelhante à típica questão “qual o filho preferido?” – “Nenhum. O amor não se divide, apenas se multiplica”.

O resultado final foi o empate. E também eu me sinto empatado.

Se sempre vivi em Portugal, grande parte das minhas férias foram em Espanha. As memórias são muitas e as experiências tantas vezes diferentes. Por um lado, a família Lourenço Mendes de Oliveira, uma típica família portuguesa, mais pequena, mais recatada, mais conservadora, mais tradicional. Por outro lado, a família España, grande, agitada, barulhenta, festiva, cosmopolita, mais na vanguarda, com mais mundo e multicultural. Talvez se explique esta diferença pela geografia – Portugal na cauda da Europa, muito fechado sobre si mesmo; a vizinha Espanha a partilhar os Pireneus com os franceses e naturalmente com o resto da Europa.

Ser Português é ser grande, maior do que as fronteiras do nosso pequeno país. Ser português é estar representado em todos os cantos do mundo e toda a gente reconhecer o nosso valor. Queixamo-nos como ninguém, mas que nunca ninguém critique o que é nosso. Temos sangue na guelra e levamos tudo de forma emotiva, à exceção da política, que acredito que boa parte de nós já desistiu. Adoramos conversar e temos sempre dois dedos de conversa para quem aparecer. Os vizinhos rapidamente viram amigos e, sempre que falta azeite ou arroz, é a eles que recorremos. Somos desenrascados com o pouco que temos, sabemos mexer-nos e chegamos onde queremos. A prova disso é o Portunhol – o dialecto que todo o português domina. Somos orgulhosos e sabemos que no final, apesar de pessimistas e receosos do futuro, tudo vale a pena quando a alma não é pequena.

Ser Espanhol é falar a cantar, é a constante disponibilidade para a festa e dança, em qualquer lado onde se vá. Somos trabalhadores, mas não abdicamos da tão famosa “siesta”. Somos geralmente rotulados de snobs, mas sabemos o que valemos e fazemos questão de levar a nossa língua e a nossa cultura connosco. Fazemo-nos anunciar em qualquer canto do mundo como sendo o grupo de espanhóis e sabemos encantar e cativar como ninguém.

Apesar das inúmeras rivalidades que nos caracterizam há tantos seculos e que tanto portugueses e espanhóis gostam de alimentar, a verdade é que são muito mais os pontos que forçam a nossa união. Somos pelo mundo fora confundidos e postos todos no mesmo saco – o da península mais ocidental da Europa.

Ser português é especial, mas ser espanhol também. Terras de sábios e ambiciosos líderes e valentes e destemidos descobridores, que a 7 de Junho de 1494, dividiram o Mundo através do sobejamente conhecido tratado de Tordesilhas.

Somos semelhantes nos atrasos, na tendência para a festa, na forma apaixonada como vivemos a vida, na ligação estreita à família e amigos, na paixão pelo futebol ou pelas touradas, na simpatia e na forma como falarmos alto e somos altamente crentes.

Somos vizinhos, somos “hermanos”. Uma rivalidade de quem se gosta e uma competição muito saudável. Venha de lá essa vitória da nossa candidatura conjunta porque dois países que sentem o futebol da mesma forma, tem tudo para correr bem e ser um verdadeiro sucesso.

Estamos juntos!

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