“Muitas empresas nunca pensaram” numa estratégia “para ter mais diversidade”, diz Teresa Carreiro, da Porto Tech Hub

Apesar de a tecnologia se ter vindo a tornar num dos setores com maior crescimento em todo o mundo, ainda uma das áreas com maior desigualdade de género, já que existe uma maior percentagem de homens nas empresas comparativamente à de mulheres.

E esta discrepância acontece ainda mais em funções de liderança e chefia, maioritariamente ocupadas por homens. Não esquecendo o longo caminho que falta percorrer para a igualdade, o certo é que existem cada vez mais líderes mulheres à frente de empresas tecnológicas, inovando todos os dias e contribuindo para o desenvolvimento e crescimento do setor.

Teresa Carreiro, member of the advisory board na Porto Tech Hub, “uma associação sem fins lucrativos de empresas tecnológicas que visa promover e fazer crescer o Porto como um centro tecnológico global de excelência”, como se apresenta no site, explica, em declarações à ‘Executive Digest’ como é ser líder e mulher no setor tecnológico, quais os principais desafios que as profissionais enfrentam e o que podem acrescentar de diferenciador às equipas tecnológicas.

 

– Como é atualmente ser líder e mulher no setor tecnológico em tecnologia?

Do meu ponto de vista as mulheres que são líderes no sector da tecnologia têm actualmente todas as ferramentas necessárias para serem fontes de inspiração para as jovens que queiram seguir esse caminho.

Existem associações e programas dedicados a promover o crescimento tecnológico e a mostrar que existem nesta área bons exemplos de liderança. Existem também programas promovidos por empresas, escolas e fundações para o desenvolvimento de capacidades com condições muitas vezes vantajosas para as mulheres que sentirem a necessidade de desenvolverem a sua carreira.

No entanto só as ferramentas não chegam. Temos de estar sempre atentas a oportunidades que possam aparecer seja para o nosso desenvolvimento, seja para a nossa carreira. Não podemos estagnar. Desafiarmo-nos todos os dias e termos a confiança de que conseguimos alcançar o mesmo que qualquer outra pessoa.

 

– O que é que as mulheres podem trazer de diferenciador a equipas que são maioritariamente lideradas por homens?

Em geral as mulheres que conheço têm um sentido prático muito apurado. Conseguem ter um ponto de vista diferente dos homens no processo de tomada decisão. Muitas vezes os homens são muito analíticos e binários, enquanto as mulheres conseguem ter mais cores no espectro. Da minha experiência têm também uma excelente atenção ao detalhe que podem fazer a diferença entre o sucesso e o insucesso.

 

– Quais os principais desafios de liderança em setores dominados por homens?

O principal desafio é as mulheres serem capazes de acreditar em si próprias e em como são capazes. Muitas vezes fazemos damos por nós em processo de auto-sabotagem. Temos tudo para conseguir mas há sempre alguma coisa que nos impede de o fazer. Arranjamos muitas desculpas. Alguns destes problemas ainda são herdados da nossa criação e da forma como crescemos muitas das vezes a ter a mãe como dona de casa e o pai a trabalhar. Quem trazia o dinheiro era o pai e quem se preocupava com tudo o resto era a mãe. Acho que são problemas que tendem a desaparecer uma vez que nas novas gerações essa é uma realidade que se vai extinguindo. As novas gerações crescem com os progenitores a trabalharem igualmente e a dividirem responsabilidades. A internet e as redes sociais também lhes trazem um outro mundo mesmo que não seja essa a sua realidade.

O segundo desafio é o respeito que conseguimos impor no nosso papel de liderança. As mulheres têm de se superar constantemente para serem reconhecidas, respeitadas e tratadas como igual. Têm de ser muito firmes nas suas convicções e acima de tudo têm de mostrar, como qualquer bom líder, que o trabalho não é individual, mas sim de equipa.

O terceiro desafio é que homens e mulheres não são iguais. Nem anatomicamente, nem psicologicamente, nem socialmente. Nem tão pouco há duas mulheres iguais. O desafio de termos opiniões diferentes porque temos vidas e princípios de vida diferentes tem de ser visto com naturalidade. Claro que o mais normal é, se eu penso de uma determinada maneira vou procurar os que pensam igual a mim. É uma mentalidade que impede o crescimento e que para já ainda está muito enraizada na nossa sociedade.

 

– Quais as principais medidas já adotadas nas empresas para colocar mais mulheres na liderança das empresas?

Há empresas que têm programas específicos para desenvolvimento das mulheres que trabalham na empresa para que sejam capazes de lidar com mais confiança com os desafios que mencionei acima. Outras enveredaram por quotas e têm benefícios diferenciados ou condições especiais para mulheres.

Acho que cada empresa deve pensar qual a estratégia que quer seguir para ter mais diversidade. Há muitas empresas que nunca pensaram no assunto. Até podem achar que é um problema não terem mais mulheres (ou mais mulheres líderes) mas faltam acções concretas de como resolver o problema e mais concertação nesse sentido entre as empresas tecnológicas.

 

– O que é que ainda pode ser feito nesse sentido?

A evolução a que temos assistido de mulheres em tecnologia é praticamente nula de há 30 anos para cá. Quando eu iniciei a minha formação em Engenharia Informática em 1991, a percentagem de mulheres no curso era diminuta e assim continua até aos dias de hoje. Claro que se não há mulheres interessadas em seguir por esta área dificilmente teremos um equilíbrio na área de liderança.

Do ponto de vista de educação é preciso trabalhar ainda mais para tornar a área de tecnologia apetecível para as jovens, pois ainda existe uma imagem tradicionalmente masculina associada a este sector. Pode passar por ter nas escolas programas de desmitificação da área tecnológica, ter programas de mentoria (felizmente existem alguns mas poucos), escolas de verão, e fazer chegar às potenciais líderes mais exemplos de mulheres que estão onde estão porque o merecem.

 

– Em termos globais, acham que já existe uma maior mobilização nesse sentido, comparando com Portugal?

Em Portugal existem várias iniciativas que têm sido criadas ao longo da última década anos, para divulgar a área tecnológica e apresentar pessoas inspiradoras a quem estiver interessado. Normalmente estes grupos/associações funcionam através de voluntárias/voluntários que dedicam o seu tempo a mudar, de alguma forma, o mundo. Há mais sensibilização quando são dias especiais (como o dia da mulher ou o Girls in ICT Day), mas não tenho conhecimento de existir uma acção concertada em Portugal.

No site Equal Genders 2030 podemos ter uma visão geral do estado actual global relativamente a igualdade do género e as medidas que estão a funcionar e em que países. Portugal está posicionado no número 23 em 144 países sendo que foi considerado que existem alguns progressos desde 2015. No entanto há 22 países que estão a fazer melhor do que nós. O nosso objectivo deve ser fazer parte dos primeiros da lista.

Fonte: SCG Gender Index

 

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