A dependência do gás russo é o grande ‘calcanhar de Aquiles’ da União Europeia, que procura alternativas energéticas, potenciadas pela exigência da Rússia que os pagamentos sejam feitos em rublos. Os Estados Unidos comprometeram-se a aumentar as importações de gás natural liquefeito (GNL) para a UE, numa tentativa de ajudar o bloco a reduzir essa dependência.
O objetivo é ajudar a União Europeia a adquirir 15 mil milhões de metros cúbicos de GNL antes do final de 2021 e aumentar o fornecimento para 50 mil milhões de metros cúbicos anualmente até 2030 – um terço do volume que a União Europeia ainda importa da Rússia.
“Estamos a testemunhar o início de um evento de destruição da procura de gás russo na Europa”, reconheceu Clark Derry, especialista em energia, em declarações ao ‘EUobserver’.
A reorientação da UE para outras fontes de energia – principalmente o GNL – vai afetar profundamente as infraestruturas de gás e energia em todo o mundo. Além do mais, diversos especialistas alertaram que a mudança para o GNL é uma má notícia para o meio ambiente.
Após anos de baixo investimento, uma série de projetos de gás entretanto anulados estão a ser discutidos ativamente por Governos e investidores em todo o mundo. A Alemanha já propôs a construção de novos terminais para receber GNL e garantiu três navios de regaseificação – o Governo germânico anunciou que o primeiro terminal offshore deverá ser implantado neste inverno.
Do outro lado do Atlântico, os Estados Unidos aprovaram 14 novos terminais de GNL nos últimos meses – atualmente, existem apenas seis terminais nos EUA. Não significa que todos serão construídos porque é preciso encontrar financiadores. Mas segundo o executivo de gás dos EUA, os investidores já se estão a formar.
Os investidores nesses projetos de milhares de milhões de euros vão precisar de garantias de que uma transição para a energia eólica e solar não poderá tornar esses ativos de combustíveis fósseis obsoletos numa década. “Só serão financiados se houver compradores suficientes para garantir 20 anos de contratos”, explicou Derry. O aumento da procura europeia pode tornar esses projetos mais viáveis.
O fracasso europeu em construir substitutos renováveis adequados para o gás e aquecimento pode impulsionar a procura num mercado global de GNL já apertado a curto ou médio prazo. “A Europa rica e a Ásia rica terão de lutar pelo pote limitado de GNL”, explicou Derry, o que vai fazer subir os preços.
Um porta-voz da Comissão Europeia descreveu o acordo UE-EUA de GNL como um “acordo de energia limpa”. O gás emite menos dióxido de carbono do que os outros combustíveis fósseis, o que significa que, em alguns casos, os estados podem usá-lo para substituir o carvão ou o petróleo como combustível de transição.
Mas nem todo o gás natural é produzido da mesma maneira. Os EUA, o maior produtor de gás do mundo, extraem dois terços de seu gás natural bombeando uma mistura de água, areia e produtos químicos em rochas em alta pressão. Esse processo é chamado de fracking e é notoriamente poluente porque liberta muito metano na atmosfera, embora seja difícil de medir. Uma pesquisa, publicada pela Universidade de Stanford, revelou que a libertação de metano é seis meses maior do que que se pensava anteriormente – uma taxa que tornaria o gás natural dos EUA mais poluente do que o gás russo, podendo até ser mais sujo do que o carvão.






