O motorista da Carris Metropolitana, identificado como Tiago, de 42 anos, que sofreu queimaduras de terceiro grau e danos internos graves após ser atacado com ‘cocktails molotov’ numa paragem em Santo António dos Cavaleiros, Loures, poderá não poder voltar a trabalhar. O ataque, ocorrido na última quarta-feira, faz parte dos tumultos que abalaram a região de Lisboa na última semana e deixou o motorista com lesões que, segundo especialistas, poderão afetá-lo para o resto da vida.
Tiago foi surpreendido por um grupo de indivíduos encapuzados enquanto realizava a última viagem do dia. Já sem passageiros no autocarro, o motorista ficou encurralado pelas chamas depois de os atacantes arremessarem vários engenhos incendiários para o interior da viatura, que estava estacionada na paragem terminal da linha. Após uma luta desesperada para sair, conseguiu finalmente escapar, mas já com queimaduras extensas na face, braços e partes do tronco. A severidade das lesões sugere que poderá não ter condições de voltar ao trabalho.
Tiago encontra-se internado no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde foi colocado em coma induzido durante os primeiros dias para aliviar as dores das queimaduras e estabilizar a condição crítica. Fontes hospitalares adiantam ao Correio da Manhã que, além das queimaduras externas graves, Tiago apresenta também danos internos, especialmente nas vias respiratórias, devido à inalação de gases tóxicos e ao calor intenso. Atualmente, o motorista encontra-se em estado estacionário, mas a situação é ainda considerada “grave”. A natureza delicada do seu quadro clínico levou à limitação das visitas, que apenas podem ocorrer através de um vidro numa sala de isolamento, para reduzir o risco de infeções, que poderiam comprometer ainda mais o seu processo de recuperação.
A Carris Metropolitana, operadora do autocarro, manifestou-se solidária e garantiu que está a prestar apoio psicológico e financeiro à família de Tiago, que enfrenta o impacto emocional da tragédia. “A empresa está a dar todo o apoio necessário a Tiago e aos seus familiares neste momento difícil,” afirmou um porta-voz, acrescentando que não há previsão para a alta hospitalar.
O ataque ao autocarro está a ser tratado com especial gravidade, ao contrário dos incêndios em ecopontos e contentores do lixo registados durante os tumultos, que foram classificados como vandalismo. As autoridades investigam este incidente como uma tentativa de homicídio, destacando a premeditação do grupo que esperou que os passageiros saíssem do veículo antes de atacar. As imagens registadas por residentes locais mostram o motorista a correr para fora do autocarro com a roupa a arder, ainda consciente mas visivelmente em choque. Foi socorrido de imediato pelos bombeiros e pelo INEM.
Até ao momento, não foram efetuadas detenções relacionadas com este ataque específico, mas as autoridades continuam a procurar identificar os responsáveis. A violência e a natureza deliberada do ataque geraram uma onda de solidariedade. No sábado, foi criada uma campanha de angariação de fundos na plataforma GoFundMe, intitulada “Ajude o Tiago”. Em apenas três dias, a iniciativa já reuniu 34.500 euros provenientes de cerca de 1.700 doadores. De acordo com os promotores da campanha, a verba será entregue a Tiago para ajudar nas despesas com tratamentos e na recuperação, física e psicológica, dos traumas resultantes do ataque.
Este ataque ocorreu numa semana de intensa agitação em várias zonas da área metropolitana de Lisboa, desencadeada após a morte de Odair Moniz, residente na Cova da Moura, que foi baleado por um agente da PSP. A morte de Odair gerou protestos e uma onda de violência em diversos pontos da capital e arredores.
O advogado Ricardo Serrano Vieira, que representa o agente da PSP envolvido na morte de Odair, comentou publicamente o caso, afirmando que a morte “é um resultado que o agente não queria”. Segundo o advogado, o polícia encontra-se de baixa e está a passar por uma “situação complexa a nível emocional”.














