A Ucrânia lançou mais de 1.300 drones contra a Rússia durante o fim de semana, num dos maiores ataques de longo alcance realizados por Kiev desde o início da guerra. Segundo o ‘POLITICO’, os aparelhos conseguiram atravessar as densas defesas aéreas russas e atingir vários alvos na região de Moscovo, incluindo instalações industriais e uma refinaria.
As autoridades russas indicaram que três pessoas morreram e 12 ficaram feridas. O ataque provocou também perturbações significativas no tráfego aéreo, com mais de 50 voos civis desviados e mais de 30 atrasados, de acordo com o Ministério dos Transportes russo.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, destacou o alcance simbólico e militar da operação. “Isto é significativo também porque a região de Moscovo é a mais densamente saturada com sistemas de defesa aérea russos”, afirmou, numa declaração divulgada este domingo.
A ofensiva ocorreu pouco depois de Zelensky ter anunciado ataques de retaliação contra a Rússia, na sequência de uma vaga massiva de bombardeamentos russos contra a Ucrânia. Só em Kiev, essa ofensiva russa provocou 24 mortos e 48 feridos.
Kiev reivindicou ataques bem-sucedidos contra a fábrica Angstrem, que produz componentes radioeletrónicos e microchips usados em armas de precisão, contra a refinaria de Moscovo e contra estações de bombeamento de petróleo em Solnechnogorsk e Volodarskoye, nas imediações da capital russa.
Para analistas ucranianos, a escala da operação marca uma mudança relevante. Taras Chmut, especialista militar e representante do Ministério da Defesa ucraniano na agência estatal de aquisições de defesa, descreveu o ataque como “o maior ataque profundo de uma só vez” realizado pela Ucrânia até agora nesta guerra. “A Ucrânia atacou Moscovo várias vezes antes, com efeito limitado. Mas desta vez o impacto psicológico é poderoso”, afirmou.
O Estado-Maior ucraniano indicou que foram utilizados drones de longo alcance, incluindo os modelos RS-1 Bars, FP-1 Firepoint e o novo Bars-SM Gladiator. Cada aparelho pode transportar entre 50 e 113 quilos de explosivos, o que permite atingir infraestruturas industriais, energéticas e militares a grande distância.
O Institute for the Study of War, citado pelo ‘POLITICO’, considerou que a sequência de ataques demonstrou a incapacidade da Rússia para proteger eficazmente a capital. Segundo o centro de análise americano, essa vulnerabilidade gerou frustração no espaço informativo ultranacionalista russo.
Moscovo procurou desvalorizar a ofensiva. O Ministério da Defesa russo e o presidente da Câmara de Moscovo, Sergei Sobyanin, afirmaram que 714 drones foram abatidos, incluindo mais de 120 sobre Moscovo e os subúrbios. Sobyanin garantiu ainda que os ataques não paralisaram a produção na refinaria da capital.
Ainda assim, a operação tem peso político. Moscovo é considerada a zona mais protegida da Rússia, com sistemas antimíssil e antidrones destinados a defender o principal centro político e económico do país. Durante grande parte da guerra lançada por Vladimir Putin há mais de quatro anos, a capital russa permaneceu relativamente afastada dos efeitos diretos do conflito.
A capacidade ucraniana de atingir alvos cada vez mais distantes tem vindo a aumentar graças ao desenvolvimento de drones e mísseis de longo alcance. Kiev procura assim levar a guerra para infraestruturas russas consideradas essenciais, sobretudo no setor energético, industrial e militar.
O impacto psicológico dentro da Rússia também começa a pesar. A Fundação Opinião Pública, ligada ao Kremlin, indicou este mês que há uma preocupação crescente entre os russos com os ataques ucranianos. Os dados mais recentes mostram que 18% dos inquiridos consideram estes ataques a sua principal prioridade, um valor recorde.
Para Zelensky, a mensagem é clara. “Este é um sinal evidente de que não se deve comprar uma luta com a Ucrânia nem travar uma guerra injusta de conquista contra outro povo”, afirmou o Presidente ucraniano.
O ataque mostra que a guerra já não se mede apenas pelas linhas da frente no leste e no sul da Ucrânia. A capacidade de atingir Moscovo, mesmo perante a forte defesa aérea russa, dá a Kiev uma nova ferramenta militar e psicológica: mostrar que a capital russa também pode sentir os efeitos da guerra que o Kremlin levou para território ucraniano.












