Foi o pior sismo dos últimos 100 anos o que abalou a Turquia e a Síria, a 6 de fevereiro, deixando um enorme rasto de destruição na zona da fronteira entre os dois países.
Atakya, cidade no sul da Turquia, foi uma das mais afetadas pelo grande terramoto. Aqui os dois grandes abalos, e as réplicas que se seguiram, deixaram praticamente todos os edifícios colapsados no chão. Outrora a terceira maior cidade do Império Romano, agora é um monte de entulho.
Um residente local chora a morte da mulher, cujo corpo ainda estará debaixo dos escombros da casa onde viviam. “Chama-se Shefika, chamo-lhe a minha rosa. Gritei o nome dela, nunca ouvi nada de volta. Fomos casados 52 anos”, explica entre lágrimas Kasim Gündüz à Eurnews. O filho também morreu da tragédia, o corpo ainda está num saco de plástico no local. Kasim aguarda que lhe sejam entregues os restos mortais da mulher, quando forem recuperados do entulho. O turco diz-se destroçado.
Na mesma cidade, Mehmet Elmaci conta que ajudou as equipas que trabalham no local desde as primeiras horas do desastre a retirar o corpo da própria irmã do meio das paredes colapsadas. “O meu cunhado e a filha deles, que é pequenina, ainda estão ali debaixo”, lamenta.
Sobreviver sem as condições mínimas
Mehmet não se lembra como saiu dos escombros. Vive desde então com a mulher e o filho bebé dentro de um carro. A realidade é que há quem nem sequer tenha um carro para se abrigar.
Não há eletricidade, água ou esgotos a funcionar. Os riscos para a saúde crescem de dia para dia, entre sobreviventes e feridos. Doenças infeciosas como a cólera ou sarna já registam surtos em Atakya. A ajuda vai chegando, a conta-gotas, mas parece nada perante a destruição causada, para quem perdeu absolutamente tudo, menos a própria vida.
Entre os sobreviventes, há revolta para com o governo. Em Antakya, há quem discorde do Presidente Erdogan, que disse que nada podia ter sido feito para prevenir a tragédia, e denuncie falta de equipamentos e máquinas para operações de resgate e salvamento.
“No primeiro dia, queríamos perfurar os escombros e não tínhamos sequer um gerador. Não havia ninguém da polícia, oficiais, ou da AFAD [autoridade turca de desastres e emergências]. No segundo dia vieram algumas máquinas. Mas disseram-me que não podiam trabalhar no imediato, porque precisavam de ordens ‘lá de cima’. E ficaram à espera. O trabalho não é coordenado, nem feito como deve de ser. Não há uma única pessoa aqui que esteja bem treinada para o que tem de fazer”, lamenta Ibrahim Halil, que sobreviveu ao violento terramoto de magnitude 7,8 na escala de Richter.
Trocam-se culpas entre governos regionais, Presidência, guerras internas ou apenas má-gestão da tragédia ocorrida.
Corpos acumulam-se no arredor da cidade
O principal cemitério de Antakya não tem capacidade paras servir de última morada aos milhares de pessoas que morreram no sismo. Assim, foi aberto um novo local para enterrar as vítimas nos arredores da cidade.
A dimensão assumida por esta espécie de vala comum é impressionante, e os corpos continuam a acumular-se, enquanto os trabalhos das autoridades continuam entre a destruição.
As vítimas que não foram identificadas são sujeitas a recolha de ADN, para que as famílias possam um dia fazer a devida despedida.
Duas semanas depois da tragédia, que matou mais de 46 mil pessoas nos dois países afetados, as esperanças de encontrar mais vítimas com vida, no meio dos escombros, já são inexistentes. Mas os milagres ainda vão despontando no meio do desastre: é o caso de Fatima, uma refugiada Síria de 25 anos, que sobreviveu seis dias debaixo dos destroços de casa, antes de ser salva e de ter uma oportunidade para uma nova vida.












