Luís Montenegro enfrentou, desde que chegou a São Bento, uma média de 2,5 pré-avisos de greve por dia. O valor é elevado, mas continua abaixo da média registada durante a maioria absoluta de António Costa, que chegou aos 3,6 pré-avisos diários, revela o ‘Público’, com base nos dados da Direção-Geral do Emprego e das Relações de Trabalho.
No total, desde o início da governação de Montenegro, foram entregues 1.890 pré-avisos de greve. A maior parte ocorreu fora do setor empresarial do Estado, num período em que o Governo procurou apresentar acordos de valorização de carreiras na administração pública como sinal de maior paz social.
Ainda assim, a tensão laboral voltou a ganhar peso político, sobretudo depois da discussão em torno da reforma laboral e da greve geral de dezembro, que juntou as duas centrais sindicais 12 anos depois da última paralisação conjunta.
Montenegro e a promessa de pôr “cobro” à situação
A tensão em torno das greves já tinha marcado a campanha eleitoral, quando Luís Montenegro, numa passagem pela Figueira da Foz, criticou uma paralisação da CP que afetava boa parte do país. “Um dia vamos ter de pôr cobro a isto”, afirmou então o líder da AD, numa referência à possibilidade de rever a lei da greve para garantir mais serviços mínimos.
Foi o único momento da campanha em que a legislação laboral foi abordada de forma mais direta, ainda que sem grande detalhe. O programa eleitoral da AD não antecipava uma reforma laboral profunda, para lá de referências genéricas à simplificação do Código do Trabalho e à redução de custos de contexto.
O quarto trimestre de 2024 foi o mais carregado
O período mais difícil para o atual Governo, em termos de pré-avisos de greve, ocorreu no quarto trimestre de 2024. Entre outubro e dezembro desse ano, foram comunicados 403 avisos prévios.
O dado surge depois do trimestre de maior acalmia, entre julho e setembro de 2024, quando tinham sido registados 151 pré-avisos. Já no primeiro trimestre deste ano, na sequência da greve geral de dezembro e dos impasses nas negociações da reforma laboral, foram comunicados 234 pré-avisos de greve.
Segundo os dados citados pelo ‘Público’, os setores com maior peso nesse período foram as atividades administrativas e dos serviços de apoio, com 24%, seguidas das indústrias transformadoras, com 22%, e das atividades de saúde humana e apoio social, com 19%.
Costa enfrentou maior turbulência laboral
Apesar da pressão sindical sobre o atual Governo, os números mostram que António Costa enfrentou uma contestação laboral mais intensa durante os 734 dias da governação socialista com maioria absoluta. Entre março de 2022 e abril de 2024, a média foi de 3,6 pré-avisos de greve por dia.
Em 2023, foram emitidos 1.495 pré-avisos de greve, o valor mais elevado desde o período da intervenção da troika em Portugal. Para esse cenário contribuíram o desgaste de vários anos de governação, a pressão política associada à maioria absoluta e a inflação, que em 2022 atingiu 7,8%, a taxa mais elevada dos últimos 30 anos.
Desde então, os números globais têm vindo a descer: 1.099 pré-avisos em 2024 e 839 em 2025.
Greve geral recoloca reforma laboral no centro do debate
Embora Costa tenha enfrentado maior turbulência estatística, foi com Montenegro que voltou a haver uma greve geral convocada pelas duas centrais sindicais. A paralisação de dezembro surgiu no contexto da reforma laboral que o Governo pretende levar por diante.
O paralelo traçado é o de 1988, quando as duas centrais sindicais também se uniram pela primeira vez numa greve geral motivada por alterações laborais. Desta vez, os sindicatos acusam o Governo de avançar com uma reforma que não foi submetida aos eleitores na campanha.
O Executivo, por seu lado, procurou desvalorizar o impacto da paralisação. Como acontece em praticamente todas as greves, instalou-se uma disputa de narrativas entre Governo e estruturas sindicais.
Governo fala em adesão reduzida, sindicatos reclamam vitória
As centrais sindicais descreveram a greve geral de dezembro como uma das maiores de sempre, apontando para mais de três milhões de trabalhadores em greve. O Governo rejeitou essa leitura.
O ministro da Presidência, António Leitão Amaro, afirmou que cerca de 95% dos trabalhadores não aderiram à greve e classificou a adesão como inexpressiva, sobretudo no setor privado e no setor social.
Luís Montenegro preferiu dividir o país entre uma “parte minoritária”, que estava em greve, e uma “parte largamente maioritária”, que continuava a trabalhar.
Ainda assim, o Banco de Portugal registou nesse dia uma quebra de 8% na atividade económica do país. No ano passado, esse indicador só foi ultrapassado no dia do apagão e na véspera de Natal.
“Deixem os portugueses trabalhar”
Perante uma nova paralisação, agora sem o apoio da UGT, o Governo começou a recuperar o mesmo argumento. A horas do início da greve, Montenegro afirmou, citado pela Lusa, estar convencido de que “a esmagadora maioria dos portugueses que trabalha, vai trabalhar”.
O primeiro-ministro recuperou assim parte do tom da sua campanha, quando pedia que o deixassem trabalhar. Desta vez, a formulação foi dirigida aos trabalhadores que não pretendem aderir à greve: “Espero que deixem os portugueses trabalhar”, afirmou, defendendo que deve ser garantido tanto o direito à greve como o direito de quem quer trabalhar, ir à escola, comparecer a consultas médicas ou cumprir as tarefas do dia a dia.



