O primeiro-ministro, Luís Montenegro, revelou que obteve uma mais-valia de cerca de 200 mil euros com a venda de ações do Millennium BCP no início de 2024. O montante será declarado tanto ao Fisco como à Entidade para a Transparência. Contudo, o próprio admitiu que, se tivesse mantido o investimento, poderia ter dobrado o lucro, numa valorização que reflete as flutuações históricas do banco.
Montenegro explicou que decidiu vender os títulos na semana anterior à sua tomada de posse como primeiro-ministro, considerando que não deveria deter ações de uma entidade cotada na bolsa. “Vendi essas ações e tive até uma mais-valia muito significativa, que, aliás, vai constar na minha declaração de rendimento deste ano”, afirmou em entrevista à TVI e à CNN Portugal.
Os ganhos com as ações do BCP contribuíram para um aumento expressivo do rendimento de Luís Montenegro em 2024. De acordo com as estimativas da CNN Portugal, baseadas nas suas declarações à Entidade para a Transparência, o primeiro-ministro terá registado rendimentos superiores a 300 mil euros ao longo do ano, mais do dobro do registado em 2023. Cerca de um terço desse valor resultou do seu trabalho político – primeiro como líder do PSD e, depois de abril, como chefe do Governo –, enquanto os restantes dois terços provieram de rendimentos de capitais.
As contas oficiais de 2023 indicavam um rendimento total próximo dos 130 mil euros, provenientes de diferentes fontes. Já em 2024, Montenegro não só beneficiou da venda das ações, como também adquiriu um apartamento em Lisboa, movimentando o seu património. No entanto, o saldo final poderá ter sido inferior ao de 2023, uma vez que o valor patrimonial da nova casa se aproxima do das ações vendidas, tendo o primeiro-ministro recorrido a uma conta caucionada e utilizado uma conta da sua mulher, que não constava da sua declaração anterior.
Apesar do lucro significativo, Montenegro admitiu que, se tivesse mantido as ações do BCP, o ganho poderia ter sido ainda maior. “Se eu tivesse mantido essas ações, elas já tinham valorizado mais três vezes”, desabafou. A valorização não foi tão acentuada, mas foi expressiva: no momento da venda, os títulos estavam a ser negociados a cerca de 30 cêntimos, enquanto esta terça-feira atingiram os 53 cêntimos, representando um aumento de quase 80%. Em fevereiro, chegaram mesmo aos 59 cêntimos, o que poderia ter resultado numa mais-valia de aproximadamente 400 mil euros.
A valorização recente do BCP reflete lucros crescentes e uma estrutura acionista estável, mas também recupera perdas acumuladas ao longo de anos. Investidores de longa data conhecem bem essa trajetória, tal como Montenegro, que relembrou a sua relação com o banco desde 1998, quando ainda era solteiro e adquiriu ações do Banco Português do Atlântico (BPA), posteriormente integrado no BCP.
“Na altura, tinha a expectativa de comprar um pequeno número de ações, fiz um empréstimo de cinco anos para as pagar, fui acumulando e depois vendi com uma mais-valia razoável”, contou. No entanto, a estratégia seguinte revelou-se menos acertada: “Mais tarde acabei por fazer uma asneira, que foi retomar a compra de ações do BCP”. Como muitos outros investidores, enfrentou longos períodos de perdas antes de recuperar o investimento nos últimos anos.
A grande queda do BCP ocorreu após a saída de Jardim Gonçalves e a tentativa falhada de aquisição do BPI em 2006, desencadeando uma guerra pelo controlo do banco. Montenegro permaneceu acionista durante cerca de 12 anos e, para mitigar perdas, adotou a estratégia de comprar mais ações a preços mais baixos para reduzir o preço médio de aquisição.
Montenegro utilizou a sua própria experiência para dar uma lição de investimento em direto: “À medida que se vê uma ação desvalorizar, comprar mais dilui o preço médio da carteira de investimentos. É importante para recuperar a poupança que, entretanto, estava ali acumulada”. A explicação do primeiro-ministro acabou por servir como um exemplo prático de literacia financeira aplicada.
Os dados conhecidos sobre o património de Luís Montenegro antes da compra do apartamento indicavam ativos avaliados em cerca de 1,15 milhões de euros. Os imóveis estavam avaliados em cerca de 800 mil euros, enquanto a carteira de títulos era de 400 mil euros. Além disso, detinha aplicações financeiras de 9 700 euros, contas à ordem com 44 mil euros e uma dívida de 100 mil euros ao BCP.
Com a venda das ações e a aquisição do novo imóvel, o primeiro-ministro poderá ter fechado 2024 com um património líquido inferior ao do ano anterior, apesar do aumento dos rendimentos. A declaração de 2024 permitirá esclarecer o impacto total das transações nas suas finanças.













