Mobilidade elétrica: “Há burocracias que não ajudam à proliferação da rede”, diz General Manager da Powerdot

A Executive Digest falou com José Maria Sacadura, fundador e General Manager da Powerdot, por forma a perceber a realidade da mobilidade elétrica em Portugal, a sua adoção, as infraestruturas, mas também os entraves a uma migração para uma mobilidade amiga do ambiente.

André Manuel Mendes
Abril 4, 2023
8:15

Numa era em que a mobilidade sustentável está cada vez mais nas agendas dos governos, das empresas e da sociedade, a opção por um veículo elétrico parece ser cada vez mais clara, no entanto, nem sempre a mais fácil.

A Executive Digest falou com José Maria Sacadura, fundador e General Manager da Powerdot, por forma a perceber a realidade da mobilidade elétrica em Portugal, a sua adoção, as infraestruturas, mas também os entraves a uma migração para uma mobilidade amiga do ambiente.

 

A mobilidade elétrica está claramente a mudar o paradigma do transporte e as mentalidades na sociedade. Quais os principais fatores que condicionam o crescimento?

O carro elétrico já é uma presença frequente nas estradas portuguesas. Se há uns anos, os preços e os modelos eram apenas para alguns, hoje em dia assistimos à democratização do veículo elétrico com opções para diversas carteiras e necessidades. Todavia, o carregamento continua no topo das preocupações para quem está a ponderar a transição. Daí olharmos para o destination charging como uma abordagem eficiente e com um enorme potencial para mudar formas de pensar e hábitos. Quando o destino — os diferentes sítios aos quais o utilizador quer naturalmente ir — se torna o ponto de carregamento, as vantagens são inegáveis. Sem desvios, tempos mortos ou até planeamento, carregar uma viatura elétrica torna-se tão conveniente como carregar um smartphone.

 

A infraestrutura de carregamentos de VE em Portugal é robusta o suficiente para que seja atrativo comprar um VE e para acabar com a range anxiety?

A capilaridade da rede de carregamento não pode ser medida ou entendida tendo em conta um único indicador. Começámos por avaliar o local de carregamento. A oportunidade de o acesso ser feito onde o carro está parado é óbvia, daí assentarmos a nossa abordagem nesta forma de pensar o carregamento. Depois, é importante perceber como é que esta rede está distribuída por todo o país. Os centros urbanos acabam por ter uma infraestrutura de carregamento mais presente, mas, para o veículo elétrico se tornar numa opção viável para todos, temos de olhar mais longe. Por isso mesmo, estabelecemos parcerias de Norte a Sul, da costa ao interior e sem esquecer as ilhas. E, por fim, temos de analisar os espaços comerciais dos nossos parceiros e desenhar soluções de carregamento que se adequem às diferentes utilizações dos seus locais de estacionamento. Se olharmos apenas para métricas como densidade de pontos de carregamento por 100 km de estrada, Portugal está no grupo da frente. No entanto, o mais importante para o condutor é ter um ponto de carregamento ‘onde’ e ‘quando’ precisa. Neste sentido temos em atenção os hábitos de consumo e procuramos que as nossas soluções se adaptem aos utilizadores e não ao contrário.

 

Um carregador elétrico é hoje um elemento decisivo na escolha de um hotel, ginásio, shopping ou restaurante?

Se fizermos a analogia com outras infraestruturas, é fácil perceber o quão rapidamente as expectativas dos consumidores se alteram. Num passado não tão distante, ter wifi num espaço comercial era algo novo e exclusivo. E o suficiente para uma pessoa mudar os hábitos de consumo e preferir ir a determinados cafés e restaurantes em vez de outros que não apresentavam estas soluções. O princípio é semelhante. No momento de escolha, os locais que apostam em infraestruturas de suporte tendem a diferenciar-se dos restantes. No caso do carregamento de carros elétricos existe ainda um fator que não pode ser ignorado — o impacto ambiental. Ter a opção de carregamento é uma forma simples de marcar uma posição junto dos consumidores e dizer com ações concretas: acreditamos que o futuro da mobilidade tem de ser sustentável. E estes sinais são importantes para quem está a decidir no que vai gastar o seu dinheiro.

 

Como se faz a gestão de uma grande rede de carregamentos através de um só centro de operações?

A aposta na centralização das nossas operações permite-nos criar eficiências de escala, apostar no desenvolvimento de soluções digitais de gestão e de suporte e, acima de tudo, ter uma visão completa das operações. Consequentemente, isto também nos possibilita alavancar o que melhor se faz em cada mercado e implementar isso mesmo em todos os restantes. Mas, para que esta equipa central — com sede em Lisboa — tenha sucesso, o segredo está em ter equipas locais extremamente fortes. Apenas com o input de parceiros e de utilizadores podemos ter a certeza de que nos estamos a focar no fundamental.

 

Onde estão presentes e qual o mercado mais importante para a atividade da empresa?

A Powerdot está presente em Portugal, Espanha, França, Luxemburgo, Bélgica e Polónia. E estes seis mercados representam oportunidades diferentes. Portugal foi o ponto de partida, e atualmente somos dos operadores de pontos de carregamento mais significativos no país.  Além disso, o mercado nacional português tem revelado um grande apetite pelas soluções de mobilidade elétrica e, portanto, foi um caso claro de estarmos no sítio certo, no momento certo. Se em Espanha o veículo elétrico era menos expressivo do que no nosso país, agora verificamos que as vendas aceleraram bastante, particularmente no último ano, havendo inclusivamente legislação sobre a necessidade de ter pontos de carregamento em parques de estacionamento de acesso público. França tem sido um mercado com um aumento muito rápido, e a nossa operação reflete isso, contando presentemente com mais de 1000 pontos de carregamento instalados. Por extensão, Luxemburgo e Bélgica eram oportunidades inegáveis. Por fim, a Polónia é talvez o mercado com maior margem de crescimento que temos. A adoção do carro elétrico e a infraestrutura de carregamento são menos representativas do que noutros mercados; todavia acreditamos que a Powerdot irá ter um papel muito importante na definição da experiência de carregamento neste país.

 

Como analisa a infraestrutura de carregamentos portuguesa? Quais os principais entraves (burocráticos e legislativos) ao aumento da rede no país?

Por vezes, a implementação dos carregadores na rede pública tem entraves burocráticos, nomeadamente no que diz respeito a licenciamentos municipais, ligações elétricas ao operador de rede, inspeções, etc. Para quem está de fora, instalar um carregador parece que é um processo simples. Porém, por detrás há burocracias que não ajudam à proliferação da rede. De salientar que a Powerdot tem sido um agente dinamizador do mercado junto das várias entidades, tentando otimizar todos os processos e melhorar os timings de instalação de carregadores.

 

O que é feito em Portugal é reconhecido no mercado externo?

A nossa experiência tem sido muito positiva. Cedo percebemos que a ideia que surgiu em Portugal tinha potencial de impactar a Europa. E a verdade é que os mercados onde estamos presentes permitiram-nos confirmar isso muito rapidamente. Por outro lado, o investimento de 150 milhões de euros por parte da Antin — fundo de investimento francês — também valida este ponto. Mas é na confiança dos nossos parceiros que sentimos o maior reconhecimento. A forma como estas relações têm evoluído é muito significativa, e até já tivemos casos em que as parcerias em determinados mercados abriram portas para outros. É com um enorme sentido de responsabilidade que procuramos dar aos nossos parceiros as melhores soluções de carregamento nos países onde operamos.

 

A ‘lei’ que proíbe a venda de carros movidos a combustíveis fósseis a partir de 2035 será o verdadeiro impulsionador deste setor? Estão as empresas preparadas para um possível boom?

Embora ainda não seja uma total proibição (a medida está em fase de acordo e não de lei), é um sinal claro sobre a direção que a mobilidade deverá tomar. Para quem acompanha a indústria, este crescimento — ou até um boom — não acontece de um momento para o outro. Por isso, quando falamos em ter 19.000 pontos de carregamento em 2025 na Europa, acreditamos que mais do que possível, é também necessário. À semelhança da adoção do smartphone, poderá parecer que, de um momento para o outro, todos têm um carro elétrico. Mas, o sucesso do elétrico virá da combinação de vários fatores: regulação, incentivos, vasta gama de opções de veículos e infraestrutura de carregamento que suporte o crescimento. Olhamos para os próximos anos como um momento transformacional para o futuro da mobilidade, e estamos muito entusiasmados por fazer parte desta revolução.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Partilhar

Edição Impressa

Assinar

Newsletter

Subscreva e receba todas as novidades.

A sua informação está protegida. Leia a nossa política de privacidade.