O Ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araqchi, irá deslocar-se a Moscovo esta semana, numa visita que antecede a segunda ronda de negociações entre Teerão e Washington, no âmbito do impasse nuclear que há décadas opõe o Irão ao Ocidente.
Araqchi e o enviado especial do Presidente norte-americano Donald Trump para o Médio Oriente, Steve Witkoff, reuniram-se no sábado passado em Omã. O encontro decorreu sob mediação do enviado omanita Badr al-Busaidi, que facilitou as conversações, deslocando-se entre as duas delegações, que permaneceram em salas separadas no seu palácio em Mascate.
Ambos os lados qualificaram as conversações em Omã como “positivas”, embora um alto responsável iraniano tenha afirmado à agência Reuters que a reunião “teve apenas como objetivo estabelecer os termos de possíveis negociações futuras”.
De acordo com a agência noticiosa italiana ANSA, Itália terá concordado em acolher a segunda ronda de negociações. A agência estatal do Iraque acrescentou que Araqchi terá informado o seu homólogo iraquiano de que as conversações ocorrerão “em breve” em Roma, novamente sob mediação omanita.
Apesar da abertura ao diálogo, Teerão mantém uma postura cautelosa, demonstrando cepticismo quanto à possibilidade de um acordo. As desconfianças agravam-se perante a postura agressiva de Donald Trump, que já ameaçou bombardear o Irão caso não seja alcançado um entendimento.
O principal objetivo de Washington é pôr fim ao programa iraniano de enriquecimento de urânio, que é visto pelos Estados Unidos, Israel e várias potências europeias como uma via para a construção de armas nucleares. Teerão, por seu lado, insiste que o seu programa nuclear tem fins exclusivamente civis, nomeadamente para a produção de energia.
O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmaeil Baghaei, confirmou que Araqchi discutirá “os últimos desenvolvimentos relacionados com as conversações de Mascate” com responsáveis russos. Moscovo, que participou no acordo nuclear de 2015, tem reiterado o seu apoio ao direito do Irão de desenvolver um programa nuclear civil.
Segundo informações recolhidas pela Reuters junto de quatro altos funcionários iranianos em março, o líder supremo do Irão, Ayatollah Ali Khamenei — que detém a última palavra sobre assuntos de Estado — mantém uma profunda desconfiança relativamente aos Estados Unidos e a Donald Trump. Contudo, Khamenei terá sido pressionado a reatar contactos com Washington devido ao receio de que o descontentamento popular, alimentado pela grave crise económica, possa degenerar em protestos de grande escala e ameaçar a sobrevivência do regime clerical.
O ambiente interno deteriorou-se ainda mais após Trump ter regressado à Casa Branca em janeiro e ter reativado rapidamente a sua campanha de “máxima pressão” contra Teerão. Durante o seu primeiro mandato, o presidente norte-americano retirou unilateralmente os EUA do acordo nuclear de 2015 — firmado entre o Irão e seis potências mundiais — e reinstaurou pesadas sanções económicas.
Desde 2019, o Irão ultrapassou largamente os limites estipulados no acordo relativamente ao enriquecimento de urânio, acumulando reservas com níveis de pureza que excedem o necessário para fins civis e se aproximam do requerido para a produção de ogivas nucleares.
A Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) manifestou recentemente preocupação com o aumento das reservas iranianas de urânio enriquecido a 60% e assinalou a falta de avanços na resolução de questões pendentes, como a presença inexplicada de vestígios de urânio em locais não declarados.
Numa tentativa de reduzir as divergências, o diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, deverá visitar Teerão esta quarta-feira, informou a comunicação social iraniana.
“É essencial manter o diálogo e a cooperação com a agência num momento em que são urgentemente necessárias soluções diplomáticas”, afirmou Grossi na rede social X na passada segunda-feira.



