Mini-satélites podem vir a “farejar” armas nucleares secretas em órbita

Pequenos satélites poderão vir a ser usados para detetar armas nucleares colocadas secretamente em órbita, num novo sistema de monitorização pensado para responder aos receios crescentes sobre a militarização do espaço.

Executive Digest

Pequenos satélites poderão vir a ser usados para detetar armas nucleares colocadas secretamente em órbita, num novo sistema de monitorização pensado para responder aos receios crescentes sobre a militarização do espaço.

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A proposta parte de Areg Danagoulian, professor associado de ciência e engenharia nuclear no Massachusetts Institute of Technology, e surge num contexto de maior competição entre potências espaciais e de crescente dependência das órbitas terrestres para serviços essenciais como comunicações e navegação.

O objetivo é criar uma forma de verificar se algum satélite transporta armas nucleares, algo proibido pelo Tratado do Espaço Exterior de 1967, assinado pelas principais nações com capacidade espacial.

Como funcionaria o sistema de deteção

O satélite de vigilância proposto teria menos de 100 quilos e poderia ser construído com equipamento disponível comercialmente. Conhecido como CubeSat, o aparelho procuraria sinais específicos emitidos por partículas subatómicas.

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Segundo o investigador, a deteção seria feita através de neutrões libertados pela interação entre o urânio de um dispositivo nuclear e protões presos no campo magnético da Terra. Essas emissões poderiam indicar que uma nave ou satélite transporta armamento nuclear em violação do direito internacional.

De acordo com o estudo publicado na revista ‘Nature’, o CubeSat teria de realizar medições durante cerca de uma semana, a uma distância aproximada de quatro quilómetros do satélite suspeito.

Danagoulian considera que o método seria politicamente viável por ser “fundamentalmente passivo”. Ou seja, não implicaria submeter o satélite analisado a raios X nem irradiá-lo.

Falta de verificação aumenta risco de crise

Para o autor da proposta, um mecanismo de vigilância deste tipo poderia servir como elemento dissuasor, tanto contra a colocação de armas nucleares em órbita como contra a escalada de crises entre países que desconfiam mutuamente.

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“À medida que os lançamentos se intensificam e o espaço fica mais povoado, a ambiguidade torna-se perigosa”, afirmou Danagoulian. Segundo o investigador, se um Estado suspeitar que outro colocou uma arma nuclear em órbita, a inexistência de um mecanismo de verificação torna mais difícil gerir a crise.

O cientista defende ainda que, se um ator de má-fé souber que a tentativa poderá ser descoberta através de inspeção, terá mais motivos para concluir que o risco não compensa.

A proposta ganha relevância porque, apesar da proibição prevista no Tratado do Espaço Exterior, não existe atualmente um mecanismo técnico que permita garantir o cumprimento dessas regras.

Receios aumentaram com alegações sobre a Rússia

As preocupações com possíveis violações do tratado cresceram depois de informações dos serviços de inteligência dos Estados Unidos indicarem que a Rússia estaria a desenvolver uma arma nuclear antissatélite baseada no espaço.

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O presidente russo, Vladimir Putin, afirmou que Moscovo é “categoricamente contra” a colocação de armas nucleares no espaço. No entanto, acrescentou que a Rússia teria de refletir sobre o conceito de “estabilidade estratégica” caso o Ocidente tentasse impor-lhe uma derrota estratégica.

Danagoulian afirmou ter partilhado o estudo com vários colegas de laboratórios nacionais e instituições de investigação na área da defesa, tendo recebido, em geral, forte incentivo para continuar o trabalho. Ao mesmo tempo, disse ter sido informado de que há investigação interna relevante em áreas classificadas, mas que os detalhes não podem ser partilhados devido aos elevados níveis de segredo.

O precedente do teste Starfish Prime

O Tratado do Espaço Exterior surgiu depois do teste nuclear americano Starfish Prime, realizado em 1962, que demonstrou o potencial destrutivo de explosões nucleares fora da Terra.

O ensaio foi realizado a cerca de 400 quilómetros acima do oceano Pacífico e danificou ou destruiu aproximadamente um terço dos satélites então em órbita baixa terrestre.

O pulso eletromagnético gerado pela explosão chegou à superfície da Terra e provocou perturbações em sistemas telefónicos e elétricos, incluindo falhas na iluminação pública no Havai.

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Método ainda precisa de testes e melhorias

Angela Di Fulvio, professora associada na Universidade do Illinois em Urbana-Champaign, considera que o método proposto poderá tornar-se útil depois de novos aperfeiçoamentos e testes.

A investigadora assinala que a tecnologia precisaria de refinamentos e de provas de funcionamento em condições menos idealizadas. Entre os desafios estão a possibilidade de existirem outros sinais de neutrões não associados a armas nucleares ou de satélites suspeitos tentarem evitar a deteção.

Di Fulvio acrescenta que esta abordagem de verificação poderá complementar outras estratégias de proteção de satélites, como manobras defensivas ou tecnologias antijamming, destinadas a reduzir o impacto de ataques.

A vantagem da verificação, segundo a especialista, é atuar noutro ponto do problema: aumentar a probabilidade de identificar um satélite com capacidade proibida antes de ser usado, reduzindo o valor estratégico de colocar secretamente esse tipo de sistema em órbita.

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