As autoridades de segurança nacional dos Estados Unidos estão a analisar uma aliança profunda e duradoura entre a Venezuela e o Irão, descrita em documentos entregues a procuradores americanos e à Casa Branca, num contexto de reforço da presença militar dos EUA nas Caraíbas e após a apreensão de um petroleiro alegadamente ligado a uma rede de contrabando associada a Teerão.
Segundo a ‘ABC’, os documentos apontam para uma cooperação estruturada entre Caracas e Teerão que abrange os setores financeiro, energético, mineiro, industrial e militar, construída ao longo de cerca de duas décadas e concebida para contornar sanções internacionais impostas ao regime iraniano, utilizando o aparelho do Estado venezuelano.
Rede financeira para contornar sanções internacionais
O relatório descreve a criação de uma arquitetura financeira e logística baseada em fundos binacionais, empresas públicas, bancos de fachada e projetos industriais sem produção real, desenvolvidos com o objetivo de branquear capitais e facilitar a evasão de sanções. Esta estratégia teria permitido ao Irão canalizar recursos através da Venezuela, recorrendo a mecanismos opacos e deliberadamente difíceis de rastrear.
De acordo com as estimativas consolidadas no documento, os projetos e fundos diretamente ligados ao Irão — incluindo energia, petroquímica e o fundo binacional — totalizam cerca de 4,3 mil milhões de euros. A este valor junta-se uma estimativa conservadora de aproximadamente 2,9 mil milhões de euros provenientes do desvio indireto de recursos do fundo sino-venezuelano, elevando para cerca de 7,2 mil milhões de euros o montante que terá chegado ao ecossistema estatal iraniano, direta ou indiretamente, através da Venezuela.
Cartel dos Sóis sob investigação alargada
O Ministério Público dos EUA está a trabalhar no eventual alargamento das acusações contra membros do chamado Cartel dos Sóis, uma estrutura composta por altos responsáveis venezuelanos que Washington designou como Organização Terrorista Estrangeira, numa decisão que entrou em vigor no passado dia 24 de novembro. As autoridades americanas identificam Nicolás Maduro e outros membros do regime como envolvidos na rede, que já se encontra sob sanções do Departamento do Tesouro.
Um antigo alto funcionário venezuelano explicou às autoridades um esquema de triangulação financeira entre China, Venezuela e Irão, baseado em fundos resultantes da venda de petróleo iraniano à China e congelados devido às sanções ocidentais. Segundo esse relato, a Venezuela funcionaria como via alternativa para a circulação desse dinheiro, disfarçado sob a forma de empréstimos que, na prática, não operavam como tal.
Apoio a atividades hostis e projeção de influência
O relatório sustenta que uma parte substancial das receitas petrolíferas venezuelanas, incluindo fundos de origem chinesa, terá sido desviada para empresas estatais iranianas e entidades ligadas à Guarda Revolucionária. Esse fluxo financeiro contínuo terá contribuído para sustentar o programa nuclear iraniano e apoiar aliados armados no Médio Oriente e na América Latina.
Os autores sublinham ainda que parte desses fundos foi utilizada para financiar redes de influência política em vários países, incluindo Espanha, através de contratos de fachada, transferências indiretas e circuitos financeiros concebidos para ocultar a origem e o destino do dinheiro.
Drones, mísseis e suspeitas sobre urânio
O documento refere que o Irão fornece à Venezuela tecnologia de drones armados, mísseis antinavio e capacidade industrial para a produção de materiais explosivos, em projectos formalmente classificados como de dupla utilização, mas que reforçam significativamente as capacidades militares do regime venezuelano e permitem a Teerão projetar poder no Hemisfério Ocidental.
São também citadas alegações anteriores sobre a identificação e controlo de alegados depósitos de urânio no sul da Venezuela, no âmbito de uma cooperação estratégica bilateral. Embora o relatório reconheça não existirem provas documentadas de remessas de urânio, aponta que a simples existência dessa infraestrutura representaria uma capacidade potencial relevante para o programa nuclear iraniano.
Hezbollah, Hamas e segurança nacional dos EUA
O relatório descreve ainda a Venezuela como uma plataforma operacional para organizações como o Hezbollah e o Hamas, facilitando redes de branqueamento de capitais, tráfico ilícito e documentação irregular. Para analistas americanos, trata-se de uma estratégia coerente de projeção de poder iraniana na região.
Neste contexto, a apreensão recente do petroleiro e o reforço da pressão judicial e militar dos EUA são interpretados como parte de uma ofensiva mais ampla. Segundo as fontes citadas, a administração Trump encara agora a relação entre Caracas e Teerão como uma frente ativa de segurança nacional, envolvendo energia, crime organizado, proliferação nuclear e terrorismo, a escassa distância do território norte-americano.













