Milhares de euros em caranguejo-real, lagosta, percebes e mariscos nas “reuniões de trabalho” de autarca de Matosinhos

A presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, Luísa Salgueiro, realizou nos últimos anos dezenas de “reuniões de trabalho” em restaurantes, sobretudo marisqueiras do concelho, com despesas que atingem valores elevados e incluem consumo de marisco e peixe em quantidades significativas.

Revista de Imprensa

A presidente da Câmara Municipal de Matosinhos, Luísa Salgueiro, realizou nos últimos anos dezenas de “reuniões de trabalho” em restaurantes, sobretudo marisqueiras do concelho, com despesas que atingem valores elevados e incluem consumo de marisco e peixe em quantidades significativas. As faturas revelam refeições que chegaram aos 2.000 euros, com itens como caranguejo-real, lagosta, lavagante, ostras e robalo de mar, pagos pela autarquia.

Segundo a revista Sábado, a autarca tem colocado obstáculos à divulgação detalhada das faturas desde janeiro de 2025 e recusa identificar os participantes nas refeições, invocando proteção de dados pessoais. Através da assessoria, justificou que, por indicação expressa da Encarregada de Proteção de Dados (EPD) da Câmara de Matosinhos, Cristina Bacelar, e seguindo orientações da Comissão Nacional de Proteção de Dados, o município “não está obrigado a divulgar à comunicação social os nomes das pessoas presentes em refeições de trabalho”, defendendo que a divulgação desses nomes “constitui divulgação de dados pessoais” e só é permitida com base legal clara ou autorização dos titulares.

Entre os exemplos documentados está um almoço a 16 de setembro de 2022 n’O Arquinho do Castelo, classificado como “reunião de trabalho com párocos do concelho para avaliar estado dos investimentos municipais nas paróquias”, no valor de 495,10 euros. A fatura inclui 5,5 quilos de “peixe” no montante de 247,50 euros — presumivelmente robalo de mar — e vinhos brancos que totalizaram 77,50 euros. Uma semana depois, a 27 de setembro de 2022, nova “reunião com párocos de Matosinhos” na Marisqueira de Matosinhos custou 642,15 euros, com consumos de sapateira (65 euros), camarão da costa (60 euros), arroz de marisco (116 euros), lagosta (90 euros), percebes (48 euros) e santola (54 euros), acompanhados por três garrafas de vinho no valor global de 72 euros.

Outras refeições apresentam valores ainda mais elevados. A 16 de fevereiro de 2022, uma “reunião de trabalho com Galp e CCDR-N”, na Marisqueira A Antiga, atingiu 1.074,98 euros, incluindo 332 euros em caranguejo-real, 297 euros em rodovalho, 105 euros em lagostins e 110 euros em vinho. Já a 15 de junho de 2023, um jantar na Casa de Chá da Boa Nova, no valor de 2.000 euros, foi atribuído ao Conselho Diretivo da Associação Nacional de Municípios Portugueses (ANMP). Luísa Salgueiro, que preside também à ANMP, justificou que, “à semelhança de todos os municípios anfitriões, [Matosinhos] fez questão de mostrar aos autarcas o que de melhor se faz em termos gastronómicos”.

As faturas incluem ainda refeições com o Conselho de Administração da TAP (756 euros, no Novo Casarão do Castelo), com ex-autarcas (171 euros), com autarcas da ANMP (527,30 euros), com a secretária de Estado do Desporto e federações desportivas (617 euros) e no âmbito de financiamentos comunitários (404,06 euros). Num jantar a 6 de maio de 2023, na Marisqueira de Matosinhos, com o ex-secretário de Estado da Saúde Eurico Castro Alves e dois convidados, a conta de 434,05 euros incluiu ostras, lagosta, lavagante, rodovalho, bife do lombo e três garrafas de vinho. Também um almoço com António Costa, descrito como “primeiro-ministro e staff”, custou 289,05 euros, enquanto outro, no restaurante Valentim, a 19 de janeiro de 2024, atingiu 780 euros, dos quais 405,60 euros corresponderam a 7,8 quilos de robalo de mar.

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Perante as críticas, Luísa Salgueiro sustenta que estas iniciativas são legítimas, afirmando que as “reuniões de trabalho” à mesa são “uma forma eficaz de trabalhar, amplamente utilizada em instituições públicas e privadas, e que complementa — nunca substitui — os processos formais de decisão”. Ainda assim, a divulgação dos nomes dos participantes permanece recusada, apesar de a autarquia ser apontada há dois anos como “a mais transparente do País” pelo Dynamic Transparency Index, distinção que a própria presidente tem divulgado nas redes sociais municipais.

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