Microplásticos ao almoço e ao jantar? Estudo revela que ingerimos cerca de 260 gramas por ano (e estamos a ficar ‘contaminados’)

Novo estudo mostrou que a ingestão de microplásticos PET (associados à cadeia alimentar) diminuiu a abundância de bactérias conhecidas pelos seus efeitos positivos na saúde e aumentou a presença de outros grupos microbianos relacionados com a atividade patogénica

Francisco Laranjeira

Os microplásticos têm vindo a galgar posições na lista de problemas ambientais por todo o mundo – a contaminação dos ecossistemas é uma das principais questões enfrentadas pelo atual modelo de gestão de resíduos, não só pelo seu difícil controlo mas também pela sua abrangência e pelas consequências que têm para a saúde do planeta.

Um grupo de cientistas espanhóis deu um passo em frente para definir os danos específicos que causa à saúde humana, especificamente os efeitos depois de se estabelecerem nos intestinos em conjunto com os alimentos e bebidas consumidas na dieta habitual. Apesar de serem praticamente invisíveis – têm menos de 5 milímetros de tamanho -, existe um número incalculável de esferas, fragmentos ou fibras feitas deste material resistente presente em todos os lugares. Principalmente nas águas – rios, mares e oceanos – mas também nas espécies animais que as povoam e nas terras que com elas são irrigadas.

Chegam a todos os cantos a partir da decomposição de objetos plásticos expostos às intempéries, tintas, pneus, produtos cosméticos e limpadores abrasivos, até mesmo das fibras que se desprendem das roupas.

O Mar Mediterrâneo é uma das áreas do mundo com maior depósito de plásticos – estudos apontam que nas águas superficiais existem 84.800 microplásticos por km2, cerca de 300 por quilo de sedimentos marinhos 59 por quilo de areia de praia.

Não é difícil perceber qual o problema – tudo o que é despejado na Natureza e esta não é capaz de degradar regressa ao nosso corpo. Um estudo recente apontou que todas as semanas ingerimos entre 0,1 e 5 gramas de microplásticos através de alimentos e bebidas.

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No nosso organismo, entender os efeitos é estudar a microbiota, conjunto de bactérias que se encontra no intestino e que estão diretamente relacionadas, não só à saúde digestiva, mas a muitos outros aspectos do bem-estar do organismo.

O estudo, realizado por um grupo de investigadores do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), publicado na revista ‘Scientific Reports’, mostrou que a ingestão de microplásticos PET (associados à cadeia alimentar) diminuiu a abundância de bactérias conhecidas pelos seus efeitos positivos na saúde e aumentou a presença de outros grupos microbianos relacionados com a atividade patogénica.

“Devido à possível exposição crónica a essas partículas, através da nossa dieta, os resultados sugerem que a sua ingestão continuada pode alterar o equilíbrio intestinal e, como tal, a saúde”, explicou Victoria Moreno, investigadora do Instituto de Pesquisas em Ciências da Alimentação do CSIC. O estudo é pioneiro a avaliar não só o impacto da ingestão de microplásticos mas também observar como esse material evolui uma vez dentro de nós.

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Ao chegar ao cólon, verificou-se que este possui uma estrutura biológica diferente da original. “Todos esses mecanismos e fatores observados, que estão apenas a começar a ser estudados, vão contribuir para descobrir se os microplásticos podem permanecer no corpo humano e potencialmente acumular-se em alguns órgãos e tecidos”, concluiu a investigadora.

O papel das milhares de milhões de bactérias que povoam o nosso intestino é essencial para a vida, pois digerem os alimentos e produzem, entre outras substâncias, vitaminas – são tão relevantes que quando algumas dessas bactérias estão em falta ou em excesso, normalmente há uma doença associada.

Muitos aspetos do bem-estar físico dependem do equilíbrio dessa população de ‘insetos’ microscópicos, cada um com o seu papel. A sua alteração é omnipresente numa infinidade de doenças, explicam especialistas, que podem variar de dermatite a insuficiência cardiovascular, passando por stress ou obesidade.

Mas, além dessas doenças, a lista de outras doenças que uma microbiota em mau estado pode influenciar não é curta: alergias, mau humor, cansaço, dores de cabeça, prisão de ventre (e o contrário, diarreia), dores nas articulações, inflamação intestinal, gases e até dermatite.

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