A greve geral convocada pela CGTP para o próximo dia 3 de junho deverá provocar fortes perturbações nos transportes públicos em todo o País, com a Federação dos Sindicatos de Transportes e Comunicações (Fectrans) a antecipar uma adesão “muito significativa” dos trabalhadores do setor. Em entrevista exclusiva à Executive Digest, o coordenador nacional da Fectrans, José Manuel Oliveira, afirmou que a paralisação poderá ter um impacto semelhante, ou até superior, ao registado na greve geral de 11 de dezembro do ano passado.
Segundo o dirigente sindical, os pré-avisos de greve já entregues apontam para uma mobilização transversal em praticamente todos os subsetores dos transportes e comunicações, envolvendo organizações sindicais filiadas na CGTP, mas também sindicatos independentes e estruturas ligadas à UGT. “Do ponto de vista daquilo que hoje podemos perspetivar, no setor dos transportes e das comunicações, a greve do dia 3 de junho, com o número de pré-avisos de greve que já foram entregues, não ficará aquém daquilo que foi a greve do passado dia 11 de dezembro”, garantiu José Manuel Oliveira.
A dimensão da adesão prevista poderá traduzir-se numa paralisação alargada dos serviços ferroviários, rodoviários, metropolitanos e até do setor aéreo. O responsável da Fectrans revelou que os pré-avisos abrangem trabalhadores “desde o setor ferroviário, rodoviário, metro, Carris, setor aéreo”, incluindo ainda “controladores aéreos, pessoal de voo” e sindicatos que não pertencem à CGTP. Para José Manuel Oliveira, este cenário “perspetiva uma adesão muito significativa neste setor” e terá “impacto na visibilidade da greve geral”.
Questionado sobre a possibilidade de os transportes públicos ficarem praticamente paralisados no dia 3 de junho, o coordenador nacional da Fectrans evitou dar garantias absolutas antes do início da greve, mas admitiu que todos os indicadores apontam nesse sentido. “Quer pela abrangência dos pré-avisos de greve, quer pelo aquilo que vamos ouvindo nos plenários e nos contactos com os trabalhadores que estamos a realizar, tudo indica que será uma greve com uma ampla participação dos trabalhadores de todos os setores de atividade em que esta Federação intervém”, afirmou.
A greve geral surge em protesto contra o novo pacote laboral aprovado pelo Governo, que tem gerado forte contestação sindical. José Manuel Oliveira descreveu um clima de “grande apreensão” entre os trabalhadores relativamente às alterações previstas ao Código do Trabalho, sublinhando que o tema domina atualmente as reuniões sindicais e os plenários nas empresas. “Muitas vezes, quase a primeira pergunta que os trabalhadores nos fazem são relativas ao pacote laboral”, contou o dirigente sindical, acrescentando que os receios vão desde “a desregulamentação dos horários de trabalho” até “às questões do despedimento por justa causa” e “à possibilidade de poderem ser substituídos por empresas de outsourcing”.
Segundo o responsável da Fectrans, a contestação não se limita aos trabalhadores mais jovens ou em situação precária. Pelo contrário, muitos profissionais próximos da reforma têm manifestado solidariedade para com as novas gerações. José Manuel Oliveira relatou que vários trabalhadores mais velhos reconhecem que as mudanças terão pouco impacto direto nas suas carreiras, mas consideram que o novo modelo laboral poderá comprometer o futuro de quem entra agora no mercado de trabalho. “Dizem que estão nesta luta também tendo em conta que este é um ataque muito significativo às gerações futuras”, afirmou, alertando que, caso as alterações avancem, muitos trabalhadores poderão enfrentar “trabalho precário durante toda a vida”.
A mobilização sindical deverá intensificar-se nos próximos dias. A Fectrans e os sindicatos associados continuam a realizar plenários, contactos nas empresas e ações de sensibilização junto dos trabalhadores até às vésperas da greve. “Temos plenários, contactos, etc., até ao dia 1 de junho”, explicou José Manuel Oliveira, acrescentando que, no setor dos transportes, existe um trabalho “profundo” de mobilização e esclarecimento.
Além das reuniões formais, os sindicatos estão também a reforçar a presença junto dos locais de trabalho, abordando trabalhadores à entrada e saída dos turnos. “Há sindicatos que vão para a porta das empresas, procuram falar com os trabalhadores à entrada ou à saída dos turnos de serviço”, referiu o dirigente sindical, defendendo que existe atualmente “um trabalho de esclarecimento muito grande” em vários setores de atividade.
A greve geral de 3 de junho deverá afetar empresas como a CP, Metro de Lisboa, Carris, Fertagus, Transtejo/Soflusa, Metro do Porto, STCP e outros operadores de transporte público urbano e ferroviário. O protesto poderá ainda estender-se a outros setores, incluindo a saúde, numa contestação nacional ao pacote laboral aprovado pelo Executivo liderado por Luís Montenegro.
O diploma, que já foi aprovado em Conselho de Ministros e seguiu para a Assembleia da República, contempla mais de 50 alterações ao anteprojeto inicial. Segundo a ministra do Trabalho, Solidariedade e Segurança Social, Rosário Palma Ramalho, 12 dessas alterações resultaram de propostas apresentadas pela UGT durante o processo negocial. Ainda assim, as negociações com as centrais sindicais acabaram por fracassar, levando a CGTP a avançar com a convocação de uma nova greve geral.







